Dos testes psicológicos (e das experiências sociais com psicólogos)

Eu sempre disse que tenho medo de psicólogos. Talvez até um pouco de asco. Acho um troço meio pseudo-ciência, pra ser bem sincero. Eu sei que isso é só um preconceito, mas tenho alguns preconceitos pelos quais tenho apreço; então, se não gostou, a porta da saída desta birosca é a serventia da casa.

Não gosto de ser avaliado por psicólogos. Psicólogos lêem a gente, mas de um jeito meio esquisito. Eu nem escrevo nada e eles já me lêem. É meio invasivo, na verdade – eu me sinto vigiado, mais ou menos quando meus e-mails são lidos pelo google pra encher minha tela de propaganda.

Psicológos têm lá uma série de 100 perguntas que você responde com níveis de 1 a 5 (ou 7, não me recordo) sobre a sua índole, seus gostos, sua boa vontade para com a paz mundial e outras coisas do gênero – não deixando de fora seus gostos e agruras sexuais. E a partir das suas respostas, descobrem lá um sem-número de características sobre a sua personalidade. A minha visão é que eles só descobrem se você é um bom ou mau mentiroso: a partir de certo ponto, as perguntas vêm em ordem inversa (ou de forma negativa) mas tratanto basicamente de temas já tratados anteriormente. Cabe a você voltar às páginas anteriores pra conferir suas respostas e provar que, se ao menos não é um bom mentiroso, não é um mentiroso burro. Seja, na pior das hipóteses, um mentiroso coerente. Isso deve ser de alguma valia, já que ele (o psicólogo) sabe que você vai mentir pra ele de qualquer forma. Se ele não sabe, então talvez ele precise de um psicólogo.

Não, pera.

Enfim, voltemos ao tal teste. Veja, há ali uma pergunta – me lembro bem dela – que perguntava com que frequência você se excitava na presença de pessoas do sexo oposto. Lembro, também, que a tal pessoa que me aplicava era uma senhorita de dotes tão facilmente recordáveis quanto a pergunta que eu li (e lembro de ter dado mais uma das minhas bolas fora comentando este fato com os meus novos colegas de trabalho; e descoberto minutos depois que ela era esposa do dono da empresa para a qual havia sido contratado). Lembro que ao ler a pergunta tive uma das crises de riso mais memoráveis da minha vida. E lembro que, durante a gafe, meu novo chefe não estava na sala. Escapei fedendo.

Mas não para nesse teste aí não. Psicólogos me dão ainda mais medo porquê conseguem decidir se você tem “o perfil desejado” pra uma determinada empresa fazendo você desenhar um caminhão de palitos numa folha branca e depois contá-los. Em grupos. Durante 5 longos e escrotos minutos. É um tal de “Teste Palográfico”, o qual apelidei carinhosamente de Teste “Empalográfico” (se você precisa que eu explique essa piada, por gentileza, retire-se deste post, seu energúmeno).
Esse, presumo, deve ser um teste de volume de bolsa escrotal. Quando mais saco você tem, mais você atura aquele teste. Mulheres têm bônus, porquê elas têm, via de regra, talento pra desenho.

Pois bem. Vez por outra eu me canso de mentir pro mundo e volto a ser o escroto que eu sempre gostei de ser decido brincar com os testes, pra ver a cara do psicólogo quando o vê – especialmente quando eu sei que o resultado não me interessa mais. Se eles podem fazer experiências sociais com a minha pessoa, eu posso fazer com a deles também. Eu já notei que a barca é furada, mas eu já perdi tanto tempo fazendo coisa mais idiota que isso (e se estes testes não são idiotas, eu não sei o que eles são), então já que eu estou ali…  que seja divertido.

No último teste “empalográfico” eu decidi que os poucos anos de estudo de música me seriam favoráveis. Calculei o beat no pé e fui contando, feito um metrônomo. 82 “palos” (palitos, cacete, PALITOS!) por intervalo, sem tirar nem pôr. A menina me olhou séria, pensativa… me olhou e disse: “que engraçado, assim tão igualzinho…”. E eu, cara amarrada: “Olha, foram 5 minutos batendo o pé pra fazer tudo no mesmo ritmo pra poder acertar as quantidades. Tô cansado, então não tô achando assim tanta graça.” Ela arregalou o olho, séria. Deve ter me achado meio psicopata. Guria não me ligou nem pra dar retorno. Ficou com medo de eu entrar no consultório atirando, eu acho.

(…)

Aos 12 anos meu pai me enfiou numa psicóloga pra tentar me curar a mágoa pela morte da minha mãe. Eu durei exatamente duas sessões. Na primeira, ela conversou comigo, perguntando obviedades sobre a minha vida, e também sobre saudade e tristeza. Ok, foi uma primeira sessão, eu não poderia esperar lá grande coisa. Além do que, eu tinha 12 anos: me faltava algum discernimento sobre o que poderia me ajudar ou não.
Segunda sessão: Papel. Lápis de cor. Eu, além de não enxergar cores direito, tenho a precisão e o talento pra desenhar de um maneta com parkinson bêbado em cima de uma plataforma vibratória. Ela, sem titubear:
“Desenhe algo.”
Eu, aflito, até então. Não só não sei desenhar, como tenho pavor. Ser avaliado por algo no qual eu tenha talento já não é lá muito divertido; em algo que eu sei que sou horrível é filha-da-putagem.
“Não, senhora. Desculpe, não nasci pra isso. Não vou desenhar.”
“Mas, querido, sem esse desenho eu não consigo te avaliar e te ajudar”.
Aqui vale uma nota: ela me chamou de querido. Primeiro, senhorita, que eu não gosto que me chamem de querido, me sinto enganado como se eu fosse um cego comprando laranjas podres na feira. Segundo, que eu não te conheço – e meu pai está lhe pagando. Eu não sou ‘seu’ querido, o talão de cheques do meu pai é que é. Paciência nunca foi meu forte. A educação, sim, mas vez por outra, quando eu fico de saco cheio, ela veste seu chapéu de feltro e sai, sem nem pedir licença – mas claro, sempre fazendo um barulho ensurdecedor na saída, pra deixar bem claro que foi embora.
“Posso lhe fazer uma pergunta?”
“Claro, querido!”
“Quantos anos de faculdade a senhora fez?”
“Cinco, por quê?”
Sutil como um paquiderme numa loja de cristais, pergunto à nobre (ou pobre, a essa altura) psicóloga:
“E não lhe ensinaram a avaliar um guri de 12 anos de forma mais inteligente que mandando ele fazer um desenho que vai ficar completamente escroto já que eu não sei desenhar? Sei lá, finge que eu sou maneta. O que você ia fazer? Me mandar desenhar com a língua? Ou fazer um remake de ‘meu pé esquerdo’ no meio do teu consultório?”

A psicóloga atendia nos consultórios do TRT (onde meu pai até hoje trabalha, e atendia os dependentes dos servidores também) e se negou a me atender novamente. Acho que ela deve ter procurado ajuda depois daquilo. Talvez pra um psicólogo.

Não, pera.

(…)

Por fim, minha última experiência foi quando me colocaram numa sala pra uma dessas malditas terapias dinâmicas de grupo. Na sala, eu, concorrendo a um cargo de desenvolvedor; umas 400 pessoas concorrendo a um cargo de técnico em radiologia (eu sei que eram menos, mas parecia isso tudo); e mais dois caras concorrendo a um cargo de instrutor do curso técnico de magia negra for dummies (sei lá se era isso, mas era um cargo com um nome comprido pra cacete e eu ignorei).
Durante a preleção, todo mundo amava loucamente o que fazia e amava demais a sua família e a sua vida fofa de propaganda de margarina. Eu, que não tinha lá muito compromisso com a situação, decidi largar o verbo: “Eu gosto de programar, desenvolver software é grande parte da minha vida. Cresci na frente do computador, é um talento meu e eu sou feliz por isso; mas se eu pudesse, de fato, viver disso, viveria de música.”
– “Interessante… E a sua família?”
– “Dão muito trabalho, melhor deixá-los lá, e eu cá. Nos damos melhor assim.”

A partir daí, a tal psicóloga passou a me olhar meio esquisito. Ali eu senti que tinha deixado ela magoada. Como assim eu não podia ser uma pessoa completamente feliz e apaixonada pelo que eu faço? Ninguém tem o direito de ser incompleto nessa vida, afinal, né? Todo mundo tem que tocar a vida na boléia de um pote de Doriana, afinal de contas, não é mesmo? Pois é, ter sonhos não realizados na vida é realmente uma coisa muito incomum, e eu sou realmente o esquisitão da turma. Vai vendo.

Durante a dinâmica de grupo, nos dividem em grupos (eu, um mago daqueles ali e duas técnicas em radiologia – sendo que uma delas falava com a boca torta e eu fiquei com vontade de esbofetear a cara dela até endireitar) e nos dão este teste aqui:

Como eu já estava com estrume até o peito depois da sinceridade das respostas anteriores, decidi fechar a conta de uma vez por todas, com direito a 10% pro garçom e tudo.
– “Quem você levaria?”
Em tom normal, respondi as escolhas do grupo:
– “O físico, a prostituta, o Ateu, a Universitária, o Violinista e o Advogado”.
Ao passo que ela me pergunta:
– “Mas porque o físico?”
– “O grupo precisa de um líder, ora bolas, senão isso vira uma confusão danada!”
– “E quem disse que o grupo vai aceitar a liderança dele?”
– “Senhora, ele não precisa de argumentos. Ele tem uma arma.”
– …
– “Concorda?”
– “Uhm… E quem você não levaria de forma alguma?”
Pausadamente, respondo:
– “O sacerdote… e o declamador.”
– “Algum motivo especial?”
– “Considerando que não iriam ajudar em muita coisa… melhor ao menos poupar a munição do físico.”

… “Entramos em contato na semana que vem, ok?”

Não, pera.