Das pequenas transgressões (ou “o dia em que velhinha quebrou minhas pernas”)

Saí esta manhã um tanto atrasado, e por consequência, irritadiço. Nessa situação faço as coisas com pressa e acabo impaciente com toda e qualquer coisa que eu ache que está diferente do que deveria (ou que pelo menos eu penso que deveria).
De carro, a caminho do trabalho, uma D-20 estacionada exatamente numa esquina, junto ao semáforo, causava um transtorno absurdo e atraso na passagem dos veículos.
Poucos metros a frente, um ciclista – nessa hora, ele achou que era pedestre – se atira na faixa de pedestres, pedalando, como se estivesse tudo bem e aquela coisa branca no chão fosse um campo de força.
Mais um pouco, o cidadão da minha frente abre a janela da direita e joga uma âncora, pra parar no meio da pista (não foi isso, mas pareceu). Parei a pouco menos de meio metro da traseira do carro dele, e o motoboy atrás do meu carro por pouco não vira patê de CG 125.
E eu fui ficando irritado, chateado, incomodado. Essas pequenas transgressões realmente me incomodam, porquê é esse mesmo tipo de gente que depois vêm reclamar de corrupção e coisas do gênero.
Cheguei, tentando não deixar isso contaminar o meu dia, ao lugar onde costumeiramente estaciono meu carro. O estacionamento fica a uns 300 metros da empresa, e lá fui eu caminhar esse pequeno trajeto que restava.
Ao virar a esquina, tive de desviar, na calçada de um carro ali estacionado. Ainda dentro do carro uma senhora que, acredito, tenha lá por volta dos seus 60 anos. Toda a raiva que passei no trajeto decidiu dar às caras, mas eu não queria ser escroto com a velhinha (não vou chamar de “jovem senhora” – passou de 60, amigo, pra mim é velhinha).
Tamborilei os dedos no vidro do carro dela; ela saiu pela outra porta e me olhou, simpática. Tirei os óculos escuros.

– Senhora, bom dia! Mas vai ficar melhor se a senhora se der conta de que isso aqui é uma calçada.
– Mas eu só vou ali entregar um negócio na peixaria!
– Senhora, tem uma rua inteira ali do lado, praticamente vazia – e com lugares apropriados pra isso -, pra estacionar. Além disso, é sempre assim: é sempre ‘rapidinho’, ‘já volto’, ‘só um pouquinho’ ou ‘só dessa vez’. Pô, todo mundo fica abusando de pouquinho em pouquinho, aí a vida vai ficando uma merda pra todo mundo! E a senhora, na sua idade, devia ser exemplo, a senhora não acha?
(Nota: sim, eu delicadamente chamei ela de velha. Mas não foi por mal, eu realmente acho que as pessoas precisam parar de se ofender com isso. Já dizia o Chaves: você é jovem ainda, mas velho será, então relaxa!)
Esperando que a jovem velhota fosse fazer uso da bolsa preta cheia de coisas de metal pra arrancar o meu pescoço, eu já estava um pouco aflito. Mas aí, velhinha gonna velhinhar: tira de dentro de algum lugar um sorriso meio sem graça, vai e me quebra no meio.

– Tem razão, meu filho. Bom dia e bom trabalho pra você, viu?

Entra no carro e vai pra rua do lado, onde há as vagas de estacionamento de sobra.

Velhinha me provando que nem todo velhinho é argila que já endureceu.
Valeu, velhinha! You made my day!

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