Das lembranças e más decisões

E então, você encontra aquela que lhe fez feliz por algum tempo.
Falta-lhe o discernimento para decidir como agir.
Você a olha fixo. Depois de tanto tempo? Será que ainda há calor?
Lembranças todas vêm à mente num instante.
Pensava tê-la esquecido completamente; puro engano.
E por mais que você saiba que é errado,
que o passado não lhe seja alvissareiro,
você se aproxima, a pega pela mão
e leva seus lábios até ela, sentindo um misto de felicidade e arrependimento.
(…)Este não é um poema de amor.
É o que eu sinto sempre que tomo aquele último gole de café, parado na minha caneca há meia hora.
Porque eu sempre faço isso, POR QUE???????

A auto-ajuda dos livros de teorias de gestão

Fico pensando no diálogo de um escritor com a consciência dele, mais ou menos assim:Ele: – Pô, tá faltando uma graninha… IPTU, IPVA, início de ano é sempre foda…
Consciência: – Você sempre foi um fracasso, cara. Pague aí seu tributinho e fica na sua!
Ele: – Mas eu não sou um completo fracasso! Tem muita gente aí mais burra do que eu!
Consciência: – É, até que nesse ponto você tem razão. Então vai logo, pensa em algo!
Ele: – Acho que vou assaltar um banco!
Consciência: – Isso, animal! Claro que vai dar certo, né? Vai ser bem fácil correr da polícia com esses teus 120 quilos!
Ele: – Também não precisa ofender, pô!
Consciência: – Vai acostumando. É bom, constrói o caráter.
Ele: – …
Consciência: – Engole esse choro, seu frouxo!
Ele: (gulp)
Consciência: – Fresco.
Ele: – Você é muito cruel.
Consciência: – Tá, vou te ajudar, mas só dessa vez, já que você não tem merda nenhuma na cabeça: escreve um livro.
Ele: – BOA IDEIA!!! Vou escrever um livro de auto-ajuda, esse negócio vende muito!
Consciência: …
Ele: – Que foi?
Consciência: – Cara, você é um idiota, mas ao menos seja honesto.
Ele: – Como assim?
Consciência: – Se é pra roubar de alguém, não roube dos frágeis e dos pobres coitados de baixa auto-estima. Roube dos idiotas, ao menos é mais honesto!
Ele: – Guias de restaurantes pra turistas?
Consciência: …
Ele: – Que foi?
Consciência: – Às vezes eu tenho vergonha de morar dentro da tua cabeça…
Ele: – Que tipo de idiota eu ataco, então?
Consciência: – Um tipo pior de idiota! Aquele tipo que vai repetir as tuas palavras como um mantra pra encher o saco de todo mundo ao redor dele e ainda vai se achar um ser iluminado por isso!
Ele: – Auto-ajuda?
Consciência: – EU ACABEI DE FALAR QUE AUTO-AJUDA NÃO, SEU ANIMAL!
Ele: – Tá. Desculpa. Teorias de gestão, então?
Consciência: – Demorou, hein?
Ele: – Mas será que livro é uma boa ideia? Será que eu encontro idiotas o bastante pra ler essa porcaria?
Consciência: – Sempre, cara! Aí depois tu vende palestras sobre o livro pros mais idiotas, aqueles que só ouviram falar da capa do teu livro na reunião semanal de “networking” deles e fica rico rapidinho!
Ele: …
Consciência: – Que foi, bichona? Vai começar a ter escrúpulos agora?
Ele: – Você é muito cruel.
Consciência: – Pelo menos eu sou não sou burro.

Se eu não te ofendo, não se ofenda

Deixa o tio explicar:

Quando eu te chamo de filho-da-puta, eu estou te ofendendo diretamente, portanto eu sou o babaca da situação;
Quando sua mãe é de fato uma puta, e você começa uma campanha com o intuito de proibir o uso do termo “filho-da-puta” porquê isso entristece você – ou seja, inferência sua com relação a uma expressão – você é um fresco.

E é isso que eu penso de vocês, minhas crianças, que ficam aí fazendo essas campanhas contra humoristas e publicitários em redes sociais.

Inferências no semáforo

Av. Presidente Kennedy, meio-dia de hoje. Sol a pino. Paro num semáforo.
Já pouco antes de parar, noto uma pequena aglomeração no semáforo. Vendedores de carregador de celular, panfleteiros e, por fim, palhaços. Três deles. Já fui, então, me preparando pra desferir minhas três frases favoritas de semáforo:

1 – Não tenho trocado;
2 – Não sou seu tio; e
3 – Odeio bala de goma! (é mentira, mas não compro nada de flanelinha. Me julgue.)

Parei, então. O vendedor daquela-coisa-espelhada-que-protege-painel esticou o bagulho, eu balancei a cabeça negativamente e ele foi procurar outra vítima.
Mas não escapei dos palhaços – seria, afinal, pedir demais da vida.

A menina-bem-maquiada-e-vestida-multicores escora na janela. O primeiro impacto é terrível: cores, muitas cores. Minha cabeça daltônica fica ali me enlouquecendo, e eu perco o foco em qualquer coisa que esteja fazendo (no caso, tentando ouvir a restártica moça).
Ela me apresenta lá um cartões postais. Dois reais cada um, que ajudam a financiar o projeto deles, já que não têm patrocínio.

(Os cartões postais, creio eu, eram do Serengeti, pois as imagens dos cartões eram de leões. Não é o tipo de bicho que eu costumo ver na Praia Comprida. Mas enfim… divago. Voltemos ao foco.)

Eu olho pra moça e nego. “Não tenho dinheiro, Pe Lan, digo, menina-bem-maquiada-e-vestida-multicores.”

Eu tinha dinheiro. Mas a cara de bunda com que o Pe Lan, digo, a menina-bem-maquiada-e-vestida-multicores me pedia pra comprar aquele cartão era de matar. Arrematava o pedido com “nós distribuímos alegria às crianças dos hospitais”.

E foi nesse momento que eu me senti um crápula. Comentei com os colegas no carro (depois de sair, claro, eu não assim tão estúpido), que a menina não tinha lá muita alegria pra distribuir, pelo visto.

Talvez porquê alegria se compartilhe, não se distribua. Acho que as crianças estão fazendo mais por ela, que ela pelas crianças. Talvez ela procure esse tipo de projeto por fuga de algo, por obrigação. Talvez tenham feito por ela, e ela faça por gratidão, mas lhe falte vontade. Talvez só o sol na cabeça e aquela maquiagem-cheia-de-pomada-minancora estivessem a incomodando a ponto de estragar seu dia.

E agora estou eu, aqui, pensando no quão maluco-idiota-e-retardado eu sou, a ponto de tentar avaliar situações das quais nada entendo, a não ser pelo olhar e o tom de voz de uma guria maquiada no semáforo.

Eu não bato bem da cabeça…

A trilha sonora de cada um

Todas as pessoas da minha vida têm uma música.

Músicas me lembram pessoas; pessoas me lembram músicas. É assim desde sempre.
E por mais misantropo que eu – às vezes – tente parecer, eu gosto de gente. Gosto de ver gente. Entre ficar em casa vendo TV ou ir à rua ver gente, a segunda opção é quase sempre a minha escolha.
Talvez esteja aí a explicação pra eu ser tão apaixonado por música. Cada música me lembra uma pessoa, um momento em que senti algo, bom ou ruim, mas que me marcou em algo. E a minha vida segue assim, com trilha sonora.

Minha memória é terrível. Esqueço nomes, datas, números, telefones. Esqueço compromissos.
E minha memória, além de falha, me trai.
Jamais esqueço um rosto – ainda que eu tente. Jamais esqueço o bem ou o mal que alguma me fez – por mais que seja o mais inteligente a fazer.

E esses rostos, essas lembranças – tanto boas quanto ruins -, sempre me vêm à mente quando ouço ‘aquela’ música. E a sensação é sempre a mesma, como se ‘aquilo’ estivesse me acontecendo de novo, como se estivesse revendo ‘aquela’ pessoa depois de anos de saudade.
E é esse tipo de coisa que me faz sorrir sozinho…
… e a que me entristece à toa, também, nos momentos mais aleatoriamente absurdos: porquê a minha memória pra música é boa, não falha nunca.

E sabe quando cometemos o erro pueril de colocar a música favorita como despertador do celular, achando que aquilo vai nos fazer acordar bem? Pois é…

Fui, por muito tempo, amargo.
Guardei, por muito tempo, rancor de certas pessoas. Guardei mágoas e tristeza de muita gente, de muitas coisas que me aconteceram e muito mal que me fizeram.
Mas agora, vejo claramente que isso não é rancor; não é decepção por ter depositado confiança em quem não merecia; sequer mágoa por ter sido tirado de mim, de várias formas, o convívio de alguém que eu amava.

É um pouquinho de ódio de mim mesmo, por ter sido ingênuo demais e permitido roubarem de mim o prazer de algumas das minhas músicas favoritas.

Experiências antropológicas nas baladas

Eu, que saio muito raramente e tenho essa mania imbecil de analisar o comportamento das pessoas, me divirto mais assim que com a festa propriamente dita.

Se você, nobre amigo, vai a uma casa noturna, vá preparado para tomar uma pisada no pé, um empurrão sem intenção de algum passante ou até um mini-banho de cerveja ou qualquer outra bebida. E vá preparado pra ser o corredor da balada – eu, que sou baixinho, sei muito bem o que é isso. É o que acontece nesses lugares, já que o lugar está lotado, e em geral o povo bebe e perde a noção de espaço e equilíbrio.
Irritar-se é opção sua. Eu sugiro que você relaxe e aproveite a noite assim mesmo, sob pena de você passar a noite inteira estressado tentando manter o seu lugarzinho na balada.

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Entretanto, o fato do desenrolar da noite se dar nessas condições não precisa fazer de você um filho da puta mal-educado.
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Se o lugar está apertado, difícil de passar, peça licença. Se não puder ser ouvido, dê um tapinha no ombro, um sorriso simpático, e dificilmente alguém lhe negará a passagem. Se esse alguém lhe negar, dê a volta na pessoa. E todo mundo segue a vida bem e feliz: você, no seu caminho rumo ao nada (porquê em balada se anda assim, a esmo); a criatura antipática, plantada ali naquele canto que ela elegeu como dela e de onde ela não quer fincar pé.

E aí chegamos a uma guerra de sexos fascinante:
– Você é HOMEM e pede passagem para um HOMEM: a passagem jamais lhe será negada, a não ser que o cidadão esteja acompanhado. Entretanto, ela raramente lhe será facilitada: você terá que passar se arrastando feito uma jibóia por entre as pessoas;
– Você é HOMEM e pede passagem para uma MULHER: se ela estiver entre amigas, a jibóia vai ser o seu provável comportamento final. Se ela estiver sozinha ou entre amigos de ambos os sexos, vai lhe ceder passagem sem muitos problemas;
– Você é MULHER e pede passagem para uma MULHER: se ela estiver acompanhada, vai te fuzilar com o olhar e dificultar tanto quanto possível. As mais vorazes pisarão em você com seus saltos agulha nº 15. O negócio é feroz. Eu não me arriscaria, se fosse mulher. Só se eu fosse muito grande (mas esse é um ponto de vista sobre o qual eu não tenho muito a dizer);

E finalmente:

———- É DISSO AQUI QUE EU QUERO FALAR ———-

– Você é MULHER e pede passagem para um HOMEM: é aqui que a porca torce o rabo. Há uma convenção social (da qual sou adepto, inclusive) de que o ser humano que tem coisas balançando pouco abaixo da linha da cintura deve ser legal, cavalheiro e simpático com aquelas pessoas que nasceram desprovidas de tal artefato.
Até aí, tudo bem. O problema é que nesta regra não há um “se”. Deveria haver – mas não há – um “se” a menina for legal, “se” a menina for simpática ou “se” ela for, no mínimo, educada.

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Isso talvez seja fruto de uma outra convenção das noitadas que diz que, se uma mulher sorri pra um homem, ela quer automaticamente dar pro cidadão. “Gato escaldado”, manja?
O problema é que a mulherada perdeu a noção. Foda-se que o lugar está lotado e você está com uma garrafa de vidro na boca; o importante é que ela nasceu com um corte no meio da anatomia, então ela tem o direito sagrado de te dar um jogo de corpo desproporcional ao espaço da balada e fazer você dar com os dentes na garrafa. Ou lhe dar uma cotovelada de fazer seu fígado se contorcer.
E você só pode sorrir e acenar, feito a Miss Universo. E sim, eu estou generalizando, porquê eu posso. Esse perfil é meu e eu escrevo nele o que me der na cachola. Se eu estou nos seus feeds, é porquê você me lê com frequência, ou o Facebook me jogou aí por um motivo. Seja ele qual for, azar o seu.
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Meninas, não sejam assim. Nem todo cara que lhe dá um tapinha no ombro quer te comer.

A bem da verdade, a grande maioria de vocês não é tão linda ou gostosa quanto pensa que é. Dizem que na balada tem um mar de mulher; eu diria que é um rio, já que o mais falta ali é sal.
No meio da balada, com aquela luz, aquele barulho todo, a galera com a cara cheia de cerveja, vocês são todas meio parecidas. Mais bonitas, mais feias, mais magras ou mais gordas, mas todas meio parecidas. Se o cara mais gato e delício da balada decidiu dar em cima de você e não da sua amiga do lado, não se sinta demais. Há uma grande possibilidade d’ele ter batido o olho em você por acaso e a testosterona ter soado na orelha dele feito um sino.
Vocês acham que se arrumaram lindas, que se maquiaram durante horas, que estão irresistíveis. E vocês estão certíssimas! Mas estão tão certas, que acabaram por ficar todas meio iguais. É por isso que alguns caras vão pra balada, bebem com os amigos, conversam com um monte de gente e vão embora sem sequer tentar ficar com alguém – sem o mínimo de culpa ou arrependimento (exceto pela conta, às vezes).

Seja gentil, se ele o for. Seja educada, se ele o for. Vocês esperam gentileza dos homens, mas cabe a vocês merecer tal tratamento. Não há maior beleza numa mulher que um sorriso simpático e bom humor. Vocês têm luz no sorriso, façam bom uso disso. Um rosto tão lindo (e tão delicada e perfeitamente maquiado, o que deixa suas expressões ainda mais marcantes) fica HORRÍVEL quando você está de cara amarrada. É uma festa, caramba! Sorria, divirta-se! É esse o propósito!

É por isso que os casais mais legais que já conheci nasceram em rodas de amigos, mesas de boteco, ou qualquer outro ambiente onde essa tensão ou cobrança social não é tão intensa. As pessoas saem de casa tentando ser o mais diferente possível das outras, mas só o que conseguem é entrar nesse ciclo pobre de espírito.

Vocês são o centro do universo, meninas, e sabem disso. Mas não abusem desse poder. Não sejam babacas. Nem gente boçal gosta de gente boçal.

— Léo, que foi pra balada ontem, não tentou agarrar ninguém e voltou pra casa sorrindo por passar uma boa noite com os amigos!

E bom dia!

A vida é um balde de Lego

Lembro dos tempos de criança, de ficar brincando de lego na sala.
Construía coisas legais, uns carrinhos espertos, gastava todas as pecinhas do balde.
Eram sempre brinquedos simples, bobos.
Mas às vezes, um desses brinquedos, uma dessas obras, ficava linda demais.
E eu me apegava. Eu não queria mais nada. Era a minha obra-prima!

E aí eu queria mantê-la ali, ilesa, bela e cuidada para todo sempre.

Mas aí faltavam peças pra continuar a brincadeira. E eu tinha que tomar uma decisão horrível: desmontar aquele lindo castelo recém-construído, ou arrumar outra coisa pra brincar.

E por muita vezes eu, criança, chorei por pena de destruir uma obra tão bonita, só pela quase obrigação de ver a brincadeira continuar.

A vida, senhoras e senhores, é um balde de lego.
E nem todo mundo é um daqueles bonecos chiques, que a gente não consegue desmontar.

Sempre chega a sua hora de voltar pro balde.