Inferências no semáforo

Av. Presidente Kennedy, meio-dia de hoje. Sol a pino. Paro num semáforo.
Já pouco antes de parar, noto uma pequena aglomeração no semáforo. Vendedores de carregador de celular, panfleteiros e, por fim, palhaços. Três deles. Já fui, então, me preparando pra desferir minhas três frases favoritas de semáforo:

1 – Não tenho trocado;
2 – Não sou seu tio; e
3 – Odeio bala de goma! (é mentira, mas não compro nada de flanelinha. Me julgue.)

Parei, então. O vendedor daquela-coisa-espelhada-que-protege-painel esticou o bagulho, eu balancei a cabeça negativamente e ele foi procurar outra vítima.
Mas não escapei dos palhaços – seria, afinal, pedir demais da vida.

A menina-bem-maquiada-e-vestida-multicores escora na janela. O primeiro impacto é terrível: cores, muitas cores. Minha cabeça daltônica fica ali me enlouquecendo, e eu perco o foco em qualquer coisa que esteja fazendo (no caso, tentando ouvir a restártica moça).
Ela me apresenta lá um cartões postais. Dois reais cada um, que ajudam a financiar o projeto deles, já que não têm patrocínio.

(Os cartões postais, creio eu, eram do Serengeti, pois as imagens dos cartões eram de leões. Não é o tipo de bicho que eu costumo ver na Praia Comprida. Mas enfim… divago. Voltemos ao foco.)

Eu olho pra moça e nego. “Não tenho dinheiro, Pe Lan, digo, menina-bem-maquiada-e-vestida-multicores.”

Eu tinha dinheiro. Mas a cara de bunda com que o Pe Lan, digo, a menina-bem-maquiada-e-vestida-multicores me pedia pra comprar aquele cartão era de matar. Arrematava o pedido com “nós distribuímos alegria às crianças dos hospitais”.

E foi nesse momento que eu me senti um crápula. Comentei com os colegas no carro (depois de sair, claro, eu não assim tão estúpido), que a menina não tinha lá muita alegria pra distribuir, pelo visto.

Talvez porquê alegria se compartilhe, não se distribua. Acho que as crianças estão fazendo mais por ela, que ela pelas crianças. Talvez ela procure esse tipo de projeto por fuga de algo, por obrigação. Talvez tenham feito por ela, e ela faça por gratidão, mas lhe falte vontade. Talvez só o sol na cabeça e aquela maquiagem-cheia-de-pomada-minancora estivessem a incomodando a ponto de estragar seu dia.

E agora estou eu, aqui, pensando no quão maluco-idiota-e-retardado eu sou, a ponto de tentar avaliar situações das quais nada entendo, a não ser pelo olhar e o tom de voz de uma guria maquiada no semáforo.

Eu não bato bem da cabeça…

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