Da apropriação científica e do menino que não come bichos

Anda rolando por aquela rede social bugada e azul e branco um compartilhamento em massa de um vídeo deveras maroto: um garotinho argumentando com a mãe que deve proteger os animais, cuidar deles; que gosta mais deles em pé, e não mortos; que ele não gosta do fato de eles terem que morrer pra comer.
Ok!, eu também achei fofinho. De verdade! Eu sei que às vezes não parece, mas eu tenho coração mole. E adoro criança falando igual criança, eu fico com cara de trouxa (coisas que mexem comigo me deixam com cara de trouxa; é a senha pra me enrolar. Fica a dica.), então eu realmente fiquei emocionado com a reação do menino.
Aí eu me pus a pensar o que raios faria um moleque de 3 (acho eu) anos de idade argumentar de forma tão articulada com a mãe? De onde veio tamanha sabedoria por parte de tão pequeno ser?

Nota: Carne é sempre bom – e digo com experiência: já comi carne de boi, lagarto, ovelha, jacaré, paca, peixe, galinha, chester (já vi um vivo, me inveje), capivara, porco, javali, rã, cavalo, cachorro e tartaruga. Só carne kosher que é uma merda: não coma. Ouve o tio, que o tio te quer bem.

O fato é que não importa o quão misantropo você seja, você inevitavelmente será atingido por algum desses vídeos que todo mundo compartilha. Que seja o Psy deitado num elevador enquanto um maluco faz movimentos pélvicos sobre a cabeça dele, um bando de retardados se chacoalhando no meio de uma praça ao som de uma música imbecil ou uma menina com o dedo torto fazendo birra com o pai pelo motivo mais trágico do mundo: ele fechou uma porta.

Um outro fato é que seres humanos andam em bando, real ou virtualmente.
O que significa que, tratando do vídeo que mencionado inicialmente, podemos dividir as pessoas de acordo com as suas reações:

  • “Ai, que fofinho!” (mulheres, em geral)
  • “Ah, isso aí foi a mãe que ensinou!” (céticos de plantão)
  • “Nós vegetarianos somos mesmo seres evoluídos!” (vegetarianos xiitas)
  • “Ela com certeza é uma criança Índigo (seja lá que porra é isso)!” (não sei de onde vem essa história e estou com preguiça de pesquisar)
  • “Ele tem dó porquê viu um polvo no Bob Esponja” (piadistas wannabe);
  • “Aliens!” (carinha do History Channel)

E aí vem uma outra questão interessante: um fenômeno conhecido como “apropriação científica”. Explico: apropriação científica é quando você usa um conceito absolutamente alheio a outro para explicar este segundo, dando a eles uma relação de causa e efeito, ou de relação análoga – mesmo não havendo nenhuma, só na cabeça do infeliz.
O que significa que por mais que seja só uma criança falando que não vai comer o pobre bichinho morto de oito patas¹, vai ter algum ser humano criativo² demais pra ver nisso a prova de alguma teoria em que ele tenha depositado confiança, fé ou tempo (perdido, às vezes) em pesquisa. E isso é assim porquê³ as pessoas têm necessidade de ter quem corrobore suas ideias. Já diria o André Dahmer, o que seria do idiota se não fosse o imbecil pra lhe massagear o ego, não é mesmo?
Além disso, o isolamento não é natural do ser humano. O ser humano é um animal social; uns mais sociais, outros, mais animais, digo, menos sociais. O que importa é que é em bando. E seres humanos não gostam do contraditório: se eu gosto, é bom, e todo o resto não é. E graças a isso, QUALQUER coisa em que ele possa se agarrar pra dar base à sua crença e lhe aproximar dos seus pares é um pote de ouro no fim do arco-íris, e ele vai comer o pote inteiro com doce-de-leite mumu® até morrer, se preciso for. Afinal de contas, somos isso: gado. Nos movemos, pensamos e agimos como gado. Em grupo. Sendo o cabeça da manada ou não, criando tendências ou seguindo-as, mas nos portamos como um bando de zebus desgovernados.

E daí que eu vi gente afirmando mil e uma coisas sobre o referido garoto.
Segue algumas das esquisitices “explicadas” pelo vídeo:

  • seres humanos são naturalmente vegetarianos;
  • a nova geração é mais evoluída;
  • ele é uma criança ‘índigo’ (vou insistir nessa, porquê achei engraçada pra caralho);
  • ele é reencarnação de buda;
  • entre outras bizarrices.

A única coisa que eu posso dizer pra vocês é que achei bizarro DEMAIS alguém fazer um nhoque de polvo. Esse troço deve ser ruim pra diabo!

Quando à explicação pra argumentação do garoto, uma palavra pra vocês, meus caros:
BACKYARDIGANS.


1 não importa se são tentáculos; é um bicho, pra mim é pata.

2 achei ‘imbecil’ uma palavra meio forte pra usar agora.
3 nunca aprendi a usar os porquês, porquê não me interessa. Nunca fez diferença pra mim, então não me cobre isso; engole assim, que é o que tem pra janta. Eu troco eles por outras palavras, note no texto acima.

Anúncios

Um pensamento sobre “Da apropriação científica e do menino que não come bichos

  1. Muito bom Léo…..e sim Backyardigans explica tudo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s