Das lembranças que sempre guardarei – “Antologia da Sátira Brasileira”

Costumo guardar todo e qualquer objeto pelo qual tenha algum apreço. Não importa se ele é útil ou não; se está velho ou se não está funcionando, não importa – se eu gosto, eu guardo. E isso se dá inclusive com meus CDs, discos de vinil, fitas cassete e até video-laser (alguém por acaso lembra dessa aberração?), coisas que hoje em dia eu sequer tenho como usar, já que meus reprodutores de áudio já não suportam essas mídias.

Em 1985, quando eu tinha 3 anos, a BASF do Brasil lançou um documentário sonoro em fita cassete chamado “Antologia da Sátira Brasileira”. Acompanhava a mesma um livreto explicativo. Com narração feita pelo Chico Anysio, ele reúne desde gravações do início do século XX até os primeiros anos da década de 80. Muitíssimo bem organizado, essa obra-prima contextualiza seus itens com os momentos históricos do país de forma que cada sátira, música ou anedota possa fazer todo sentido para qualquer um que o ouve, ainda que não tenha vivido ou sequer ouvido falar de nenhuma dessas épocas.

antologia_capa

Tive contato pela primeira vez esse material em 1988. Sempre fui, desde criança, metido a engraçadinho (como sou até hoje), então esse é exatamente o tipo de material que me faz apaixonar quase que instantaneamente. Aquela pequena fita cassete tinha um valor gigantesco para mim, mas meu pai parecia não dar a ela o devido respeito; o livreto sumiu, e ele deixava a pobre fita cassete misturada a tantas outras da coleção particular dele. Em 1990, num descuido do velho, subtraí a bendita de suas posses para dar-lhe o carinho merecido.

Com o advento do CD a minha esperança era gravar esse áudio nesta mídia, para guardá-lo com mais segurança. Gravadores de CD custavam o preço de um Monza (sem brincadeira) e empresas que prestavam esse tipo de serviço queriam o preço de um fusca velho. E claro que aos 12 anos de idade eu não tinha essa quantia à minha disposição (e também não ia gastar nisso se tivesse, que eu tenho noção do ridículo).

O tempo passou, a Internet apareceu dois anos depois, e com ela a minha esperança de conseguir esse bendito material em meio digital. Assim que tive minha primeira conta de e-mail, não contei tempo: enviei um pedido encarecido (quase implorei, na verdade) à BASF para que me conseguisse esse material de alguma forma. A resposta me deixou triste: a BASF havia encerrado suas atividades de produção de magnéticos no Brasil e, com isso, não possuía esse registro. Ele fazia parte do Projeto Cultural BASF, que foi abandonado no meio da produção e teve todos os seus registros descartados, por mais absurdo que isso pareça.

Tentei, com o passar dos anos, digitalizar o material, inclusive pelo medo de vê-lo destruído pelo mofo ou pela desmagnetização da fita cassete. Os resultados sempre foram precários com relação à qualidade.

Até agora.

Eis que vem 2013 e, com ele, uma uma bendita aquisição: uma interface de áudio que facilitaria meus trabalhos de gravação, dando mais qualidade às captações. Além disso, passei a estudar, de uns meses pra cá, técnicas de gravação, mixagem e masterização de áudio, o que me ajudou muito.

Talvez sejam esses os cinquenta minutos de áudio que guardo com mais carinho. E é por esse motivo que compartilho com vocês esse documento que não pode, de forma alguma, ser perdido.
A produção é da BASF, a transferência da fita cassete para mp3 é minha, assim como a nova masterização, a fim de dar uma melhorada na qualidade – já que a fita já tem quase 25 anos. O tratamento foi feito em 128 kbps, já que o nível de ruído em 320 kbps ficou absurdamente alto.

Espero que gostem. Eu ganhei meu dia – ou melhor, anos de felicidade com essa gravação!
Escutem, e talvez passem dar mais valor à sátira e ao humor. Não é à toa que o humor sempre incomoda tanto os políticos: ninguém esquece uma boa piada.

E divirtam-se! 🙂

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7 pensamentos sobre “Das lembranças que sempre guardarei – “Antologia da Sátira Brasileira”

  1. […] produzida pela BASF e narrada por Chico Anysio. Antes de qualquer coisa, devemos agradecer ao Léo Ramos por esse documento. Peço para que leiam o texto no qual ele explica a história desta fita K7 e agradeçam-no por […]

  2. […] produzida pela BASF e narrada por Chico Anysio. Antes de qualquer coisa, devemos agradecer ao Léo Ramos por esse documento. Peço para que leiam o texto no qual ele explica a história desta fita K7 e agradeçam-no por […]

  3. Mureloo disse:

    Agradeço muito, a sua postagem… Eu também tinha essa fita mas em determinado momento, me dei conta de que havia sumido. Eu já havia perdido as minhas esperanças, de poder ouvir esse documento histórico, tão nostálgico quanto atual, novamente. Procurava por esse áudio há mais de uma década, sem sucesso. Que satisfação! Obrigado mesmo. Como na época, eu também era criança, eu quase não tinha idéia do que se tratava tudo aquilo que diziam, mas gostava de ouvir e a única coisa de que sempre me lembrei até hoje, em detalhes, era a narração do turfe. Agora, ouvindo novamente, percebo o quão importante e quanto sentido faz, esse documento. Ao ouví-los, e percebendo a forma como faziam naquela época, fico com a impressão de que desaprendemos como se deve protestar, registrar o momento e divulgar com muito humor, os problemas políticos atuais. Fico pensando na audácia de todos aqueles artistas que em uma época de governantes ditadores (o que na verdade, não mudou muita coisa), tinham a coragem de gravar discos e distribuir em lojas comerciais ou mesmo, dar ‘alfinetadas’ em rede nacional pelo microfone da rádio. O Programa CQC bebeu nestas fontes, certamente. Alguém tinha que manter a tradição de como fazer… Agora, falando sobre o áudio, há um momento, logo após o Juca Chaves que pareçe que houve um corte e falta um pedaço. Não lembro se é assim mesmo mas mais uma vez muito, muito obrigado…

    Abraço, caro amigo…

    • Léo Ramos disse:

      Obrigado pelas palavras, Marcelo!!
      Meu caro, sobre o “corte”: a gravação original é assim mesmo. Os trechos do Juca Chaves são intercalados com a narração, o que acabou causando este efeito.
      Forte abraço, e novamente obrigado pelas palavras 🙂

  4. Raphael disse:

    Muito obrigado pela postagem!! Como o colega que comentou abaixo eu também tinha a fita e acabei perdendo. Acabou marcando minha infância, mesmo eu não entendendo profundamente o sentido de algumas piadas. E acabou me ajudando nas aulas sobre história do Brasil (“Ah, então era disso que o Chico falava na fita!”). Notei que faltou uma fala, depois que o Chico dramatiza o coronel: “‘Homens, o voto de vocês é livre desde que votem no meu primo Gutemberg!!’ – era o voto de cabresto.” Lembro que logo depois desta fala e antes da música eletrônica ainda dizia algo como: “E foi sobre isto que meu xará Chico Alves atacou de rijo com uma marcha de Eduardo Souto, isto lá pelos idos de 29!” Mas de qualquer forma dou os parabéns pela postagem e agradeço muito. Postagem utilissima para a preservação da memória com a divulgação deste documento tão importante!

    • Léo Ramos disse:

      Raphael, obrigado pelo comentário!
      Creio que tenha havido algum corte errado de minha parte, então. Vou conferir isso logo, e qualquer coisa aviso por aqui. Valeu o toque!

      • Raphael disse:

        De nada. Há mais dois pontos faltantes. Um é o trecho com a música do Juca Chaves que o colega já citou em outro comentário anterior. A última frase da canção do Juca que falta é “o povo passa fome mas Brasil é campeão. E viva a constituição!” Tem um outro trecho que senti falta no lado B da fita – tem o início da canção “Geléia geral” de Gilberto Gil (começa assim: “O poeta desfolha a bandeira e amanhã tropical se inicia…”). Se não me engano era antes ou logo depois das piadas do Pasquim.
        Um grande abraço!

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