Da incoerência religiosa

“- Ah, mas esse papa é humilde!”
“- Ah, mas ele está falando contra recomendações da igreja!”
“- Ele quis ficar num quarto simples!”
“- Ele desfilou em carro aberto!”

Meu caro, veja a instituição que ele representa. Ele desfez algum mal causado por quem ele representa – ou ao menos demonstrou alguma intenção disso até agora?

Não, né? Só posou de bonito e fez discurso barato pro populacho.

E eu vou parar de falar por aqui, que daqui pra baixo eu ia começar a ser grosseiro, e eu tô tentando evitar.

Lembra do bode na sala, né? Bento XVI era conservador até a última bactéria debaixo das unhas, e todo mundo desceu o cacete no velho.
O anterior não era popular, mas ao menos era coerente.

Bem ao contrário de vocês aí mostrando os dentes pra esse figurão de vestido.

Povinho imbecil.

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Desarmonia

Havia aquele, de carne e vergonha
Que endeusa a musa, a clara, a alva e pura,
Que amortece no amor suave, que sonha
A mais perfeita imagem que lhe cura.

Havia aquela, divina, risonha
Que canta, que dança, embala doçura,
Que chora, atua, se faz de tristonha
Mas que se impõe no primor da ternura.

Haviam aqueles sonhos, mais distantes
Diametralmente opostos, proibidos,
Que se tocavam nos beijos errantes.

Haviam vários desejos, libidos
Que não queriam ouvir, arrogantes,
A canção dos corações já partidos.

Que-me-vá.

Adeus, amor, tenho que ir, já me vou.
Não quero mais me demorar, devo ir.
Mesmo que não me esperem, ainda sou
aquele, antes de mim, que há de existir.

Amor, adeus, pois o tempo chorou
do atraso da minha vida, do devir,
da lágrima que caiu, não voou;
salgou, nociva, o que iria parir.

Seriam dois pares de olhos amantes,
duas paixões na mais intensa verdade,
duas bocas, dois lábios, nossos semblantes

gozando sorrisos na eternidade;
Adeus, meu amor, a dor já é bastante,
que me dói pensar “vou tarde, vou tarde”…

Dos aprendizados com experiências de quase morte

Eu nunca fui um cara de muita sorte com acontecimentos. Murphy sempre foi uma criatura pouco gentil comigo; sempre que algo ruim pode acontecer, ela acontece. E geralmente, da maneira mais destrutiva possível. A parte boa nisso é que geralmente eu fico com alguma lição da história. Até já me acostumei a me ferrar de vez em quando, seja lá qual a maneira. Entretanto, às vezes as coisas vão um pouco longe demais e eu fico pensando que esse azar uma hora me leva pra trocar uma ideia com aquele japonês da Yoki.

Era um sábado à tarde, tempo chuvoso, frio. Estúdio pra organizar, meus instrumentos pra regular, casa pra limpar, roupa pra lavar. Vontade? Nenhuma. Na oficina, duas guitarras de clientes: uma Stratocaster pra blindar e uma Les Paul pra regular as oitavas e o braço. Trabalho pra fazer eu tinha; me faltava vontade, mas pensei que o trabalho manual com a madeira iria me ajudar a limpar a pilha de estrume que eu tinha acumulado na cabeça.

Desmontei a Strato inteira. Tirei cordas, ponte, pus o hardware de molho no anticorrosivo. Preparei a tinta magnética, a fita de cobre. Retifiquei os trastes e deixei a madeira do braço hidratando. Observava cada milímetro da madeira trabalhando. Um knob ou outro pra trocar, talvez até um ajuste fino fosse necessário, mas a guitarra com certeza ficaria pronta pro show da noite.

Ao retirar o escudo do corpo com os captadores, percebi um crime: apesar de serem três captadores single-coil, duas das piscinas cavadas no corpo da guitarra eram para humbuckers. Estava explicada a origem de tanto ruído, e me daria um pouco mais de trabalho pra fazer uma blindagem mais adequada: preencher aquele espaço restante faria com a madeira ajudasse a evitar a propagação de ruído. Eu precisaria de uma chapa estreita de mogno, e um trabalho de umas duas horas de colagem e vedação dariam jeito nisso.

Puxei a chapa da pilha à minha esquerda. Prendi no gabarito, marquei a medida. Serra tico-tico em mãos – primeiro corte certeiro. Segundo corte, descubro um nó da madeira que seria muito ruim pro som. Vou em busca de outra chapa, a mais de cima da pilha. Puxei a chapa e com ela vem um monte de poeira que me faz abaixar a cabeça para evitar a inalação; sinto algo no ombro esquerdo, próximo ao pescoço. Como não havia largado a serra da mão direita, solto ela de qualquer jeito sobre a bancada e dou um tapa no ombro. Voa pó pra todo lado, sinto uma dor absurda no ombro, como uma ferroada. Vejo um inseto marrom qualquer no chão; a visão estava atordoada pela dor e pelo pó e não me permitia ver o que era.
Sozinho na oficina, corri em busca de um espelho. O ferimento era pequeno, sangrava pouco. Limpei a região, espremi, tudo bem. A dor passou, a região parou de sangrar, ignorei.

Concluí meu trabalho com a guitarra e fui contente entregá-la à dona, que faria show com ela aquela noite. O show foi cancelado, e ela decidiu ir à outra festa. Me convidou, e como a cabeça não estava lá muito bem mesmo, decidi aceitar o convite.
Contei o susto aos amigos mais próximos que encontrei na festa, como de praxe, e ríamos juntos do ocorrido. Como balada não é o tipo de coisa que me agrada muito, lá pela uma da manhã a minha paciência já não existia mais. Estava triste demais pra me envolver com festa, decidi voltar pra casa.

Cheguei, deitei, dormi. Simples assim. Acordei sabe-se lá que horas, mas imagino que fosse algo em torno de três horas da madrugada.

Não conseguia respirar. Parecia que algo ou alguém me pressionava o peito com vontade, como se batesse com uma marreta sobre o peito. Doía do pescoço até à boca do estômago. O peito era a região mais dolorida. Decidi então correr até a cozinha e tomar água. Ao tentar sair da cama, o desespero: os dois braços absolutamente dormentes, não respondiam sequer ao comando pra retirar do caminho o edredon que me cobria.
Rolei da cama e fui caminhando até o corredor. A pressão parecia muito baixa, já que eu estava muito tonto. Com a porta aberta, passei reto. Bati com o rosto na parede em frente e caí.

Acordei depois, com o sol nos olhos. Tentei levantar, as pernas não respondiam. Meus braços não pareciam bem, mas eu já os movia. Por pura sorte (veja, alguma sorte eu tinha de ter), eu havia deixado o celular carregando na cama, mas numa extensão que estava ligada no estúdio, exatamente ao lado de onde eu caí. Puxei o telefone pelo fio e chamei o SAMU, balbuciando, praticamente. A voz mal saía; estava fraco e enxergava mal. O SAMU chegou voando (ou quase isso), arrombou a porta do apartamento. Tudo que consegui dizer foi “obrigado” e “levei uma picada de algo, acho que uma aranha”. E é o quanto lembro dessa história toda.

No meu histórico médico, consta a contaminação por veneno de aranha. O soro que me foi dado, pelos sintomas, foi para o ataque de uma aranha armadeira. Funcionou, ótimo. Pressão no atendimento pré-hospitalar: 7:5. Quatros doses de soro, vacina antirrábica, antiinflamatório para o ferimento. O médico discursava: “Com a pressão nesse estado, o teu peso e a amostra de veneno no teu sangue, você escapou de um infarto por um triz. Volta pra casa e pensa na vida, guri, que tu nasceu de novo!” e me dava indicações das próximas doses de soro. E lá vou eu, uma vez por semana, até a semana do meu aniversário (ao menos já tenho um presente: me ver livre dessas agulhadas malditas).

E foi assim que eu criei (mais) medo de aranha.

“Mas Léo, você disse que sempre tira lições das coisas ruins que te acontecem; o que saiu dessa?”
(…)
No meu celular, não conta na agenda o telefone “Pai”, “Mãe”, “Casa” ou qualquer coisa do gênero (não sei o porquê, só não pus esse tipo de coisa nele). A enfermeira já havia “fuçado” meu celular em busca de um contato, e obviamente não encontrou nada. Assim, quando acordei, ela perguntou pra quem ela ligava pra avisar que eu estava no hospital. Família, amigos, quem fosse.

Entrei e saí sozinho do hospital.
Acho que, no fundo, eu só queria ter um nome na ponta da língua pra dizer pra ela. Sem pensar; sem pestanejar. E eu não tinha.

E quase dois meses depois, eu ainda não tenho a resposta pra dar pra ela.

Das leis que não mudam nada (ou “Da Inutilidade do Ato Médico”)

Notícia ruim: sancionaram a Lei do Ato Médico.
Notícia boa: a mulher que nos governa vetou tudo que mudava alguma coisa.

Geralmente as coisas vão da teoria à prática; com essa lei, foi o contrário. Ficou na lei só o que acontece todo santo dia nas instituição de promoção à saúde.

Veja: não me incomoda o fato dos vetos, eles eram muito necessários e justos com todas as categorias envolvidas nesse processo. Me incomoda, sim, e muito, tanto tempo, esforço e dinheiro investido em algo que não tem reflexo algum, na prática.

Ou seja: passaram 11 anos discutindo um assunto, gastando o seu dinheiro com burocracias mil e vai ficar tudo como era antes: o técnico de enfermagem furando as vossas nádegas sem pudor ou piedade, a enfermeira lhe aplicando medicação em orifícios nunca dantes explorados de sua anatomia, a nutricionista te ensinando a comer salada como um bom menino e o fisioterapeuta transformando essa rampa de skate que você chama de coluna vertebral numa coisa que doa menos.

E tudo isso com bastante tempo na sala de espera do consultório, do ambulatório, do hospital, do laboratório e da pré-autorização do plano de saúde.

Um pequena reflexão sobre a greve geral

Consideremos o sem-número de empresas que só prestam serviços para outras empresas, em atividades-meio, ou seja, que muitos serviços só existem para a manutenção e disponibilidade de pessoal e espaço físico de empresas que não prestam serviços diretamente ao consumidor final. Me parece, graças a isso, que essa greve geral, caso obtenha um alto nível de adesão, nos serviria muito bem pra mostrar o quanto muitos serviços são completamente inúteis e superestimados, e o quanto gastamos – e nos desgastamos! – com atividades completamente automáticas e sem sentido, nos comportando como gado.

Mais ainda: serviria, se cada um se dispusesse a refletir um pouco, para enxergarmos o quanto somos vistos apenas pela nossa utilidade para os outros – e que na realidade não temos, para a grande maioria destas, utilidade alguma.

Hora boa pra se ter a devida noção de onde e no que depositamos tanto esforço e pra quem (ou para o que) doamos – ou até desperdiçamos – nossos finitos e valiosos segundos dessa vida estranha.

Da imortal gratidão

Nunca fui uma pessoa muito ligada à família, a não ser quando muito criança. A educação rígida, a exigência da excelência máxima nos estudos e na polidez no tratamento com as pessoas foram fatores que transmutaram lentamente nossa casa de lar carinhoso a um centro de treinamento militar. Foi um processo lento, provocado por fatores que nem sempre podíamos controlar. Doenças na família, falta de diálogo em muitos sentidos e, acima de tudo, falta de compreensão da individualidade e personalidade de cada membro da família.
Entretanto, dizem que a fruta não cai longe do pé. Mesmo me afastando tanto, vejo (e veem em mim, de fato) muitas das características que a família me deixou como herança e como marcas que não consigo apagar.
Herdei de meu pai a neurastenia, a revolta com injustiças de qualquer tipo (e a verborragia no processo) e a necessidade de olhar as pessoas nos olhos. A frase “Um aperto de mão firme e uma palavra honesta podem te levar a qualquer lugar que você queira” era repetida quase como um mantra. Meu pai sempre teve essa necessidade de me ensinar a como me portar como homem. De fato, faz isso até hoje, mas agora mais como amigo que como pai e filho. Me ensinou, acima de tudo, a ser educado e cortês – pelo menos até que as pessoas demonstrassem não serem merecedoras de tal tratamento. A gratidão que tenho por estes ensinamentos recebidos dele não tem tamanho, e melhor: sempre tive tempo de dizer isso a ele, diretamente, sem rodeios.
Contudo, apesar da relativa aparência física com o meu pai, foi da minha mãe que herdei as mais notórias das minhas características. Lembro de um dia, ao voltar de escola, de ser recebido pela minha mãe de uma maneira bastante estranha: ela se escondeu entre um armário e a geladeira, e enquanto eu a procurava, ela me jogou dois ovos na cabeça. Fiquei com gema de ovo da testa ao tornozelo, e não há até hoje explicação pra isso – a não ser a necessidade que a minha mãe tinha de estar sempre brincando.
Herdei dela essa necessidade, assim como o senso de humor ácido, a gargalhada que tranca o ‘r’ na garganta e se arrasta me fazendo pagar mico e o jeito de abraçar as pessoas como se fosse a última vez que fosse vê-las. Demonstrar às pessoas seu apreço, seu afeto, independente de qualquer coisa, era a melhor maneira de ser honesto consigo e com os outros. Era onde convergiam a educação que ela me dava com a que meu pai promovia. Minha mãe sempre foi extremamente mais carinhosa que meu pai, mas nunca deixou de ser forte comigo e com os problemas que mereciam austeridade na sua resolução. Ela é a imagem de bondade e de amor responsável que ficou na minha cabeça para sempre.
Infelizmente, a ela eu não pude dizer isso diretamente – inclusive por que ela faleceu muito antes que eu tivesse consciência do que a personalidade dela fez com a minha.
Mas a mesma vida maluca e injusta que nos dá rasteiras nos acaricia, volta e meia. Visitando meus primos, no ano passado, em meio a uma discussão sem pé nem cabeça com relação ao destino do corpo da minha mãe, uma das minhas tias me mostrou uma carta que ela enviou meses antes de falecer. Nela, citava minha irmã mais velha e a mim. De mim, falava exatamente da preocupação que tinha comigo, com a minha educação e com os sentimentos que tinha à época. Falava do meu comportamento, da maneira com que eu me postava frente às coisas de uma forma muito parecida com a que ela se postava, e do quanto isso a tranquilizava com relação às minhas atitudes dali pra diante.
Aquilo que eu nunca pude dizer a ela, ela já sabia, há 18 anos. Além de tudo que ela sempre foi, ainda era genial. Ah, mãe! Sacanagem! Aí tu me quebra todo de orgulho!
Eu nunca pude te dizer, mãe, o quanto eu sou grato por tudo que você me fez. Eu nunca pude te dizer o quão orgulhoso eu sou por ter sido agraciado, apesar de pouco, pelo teu convívio e ter sido formado – e transformado – pela pessoa que você foi.

Parabéns, Dona Dê! Lá se iriam 61 anos do sorriso mais lindo e fácil que já conheci na vida – espelho daquilo que eu sempre quis ser, pra mim e pros outros.
A saudade mudou um pouquinho, já que a rotina muda; a gratidão, nunca. Feliz aniversário, Mãe, e Muito Obrigado por tudo!