Da imortal gratidão

Nunca fui uma pessoa muito ligada à família, a não ser quando muito criança. A educação rígida, a exigência da excelência máxima nos estudos e na polidez no tratamento com as pessoas foram fatores que transmutaram lentamente nossa casa de lar carinhoso a um centro de treinamento militar. Foi um processo lento, provocado por fatores que nem sempre podíamos controlar. Doenças na família, falta de diálogo em muitos sentidos e, acima de tudo, falta de compreensão da individualidade e personalidade de cada membro da família.
Entretanto, dizem que a fruta não cai longe do pé. Mesmo me afastando tanto, vejo (e veem em mim, de fato) muitas das características que a família me deixou como herança e como marcas que não consigo apagar.
Herdei de meu pai a neurastenia, a revolta com injustiças de qualquer tipo (e a verborragia no processo) e a necessidade de olhar as pessoas nos olhos. A frase “Um aperto de mão firme e uma palavra honesta podem te levar a qualquer lugar que você queira” era repetida quase como um mantra. Meu pai sempre teve essa necessidade de me ensinar a como me portar como homem. De fato, faz isso até hoje, mas agora mais como amigo que como pai e filho. Me ensinou, acima de tudo, a ser educado e cortês – pelo menos até que as pessoas demonstrassem não serem merecedoras de tal tratamento. A gratidão que tenho por estes ensinamentos recebidos dele não tem tamanho, e melhor: sempre tive tempo de dizer isso a ele, diretamente, sem rodeios.
Contudo, apesar da relativa aparência física com o meu pai, foi da minha mãe que herdei as mais notórias das minhas características. Lembro de um dia, ao voltar de escola, de ser recebido pela minha mãe de uma maneira bastante estranha: ela se escondeu entre um armário e a geladeira, e enquanto eu a procurava, ela me jogou dois ovos na cabeça. Fiquei com gema de ovo da testa ao tornozelo, e não há até hoje explicação pra isso – a não ser a necessidade que a minha mãe tinha de estar sempre brincando.
Herdei dela essa necessidade, assim como o senso de humor ácido, a gargalhada que tranca o ‘r’ na garganta e se arrasta me fazendo pagar mico e o jeito de abraçar as pessoas como se fosse a última vez que fosse vê-las. Demonstrar às pessoas seu apreço, seu afeto, independente de qualquer coisa, era a melhor maneira de ser honesto consigo e com os outros. Era onde convergiam a educação que ela me dava com a que meu pai promovia. Minha mãe sempre foi extremamente mais carinhosa que meu pai, mas nunca deixou de ser forte comigo e com os problemas que mereciam austeridade na sua resolução. Ela é a imagem de bondade e de amor responsável que ficou na minha cabeça para sempre.
Infelizmente, a ela eu não pude dizer isso diretamente – inclusive por que ela faleceu muito antes que eu tivesse consciência do que a personalidade dela fez com a minha.
Mas a mesma vida maluca e injusta que nos dá rasteiras nos acaricia, volta e meia. Visitando meus primos, no ano passado, em meio a uma discussão sem pé nem cabeça com relação ao destino do corpo da minha mãe, uma das minhas tias me mostrou uma carta que ela enviou meses antes de falecer. Nela, citava minha irmã mais velha e a mim. De mim, falava exatamente da preocupação que tinha comigo, com a minha educação e com os sentimentos que tinha à época. Falava do meu comportamento, da maneira com que eu me postava frente às coisas de uma forma muito parecida com a que ela se postava, e do quanto isso a tranquilizava com relação às minhas atitudes dali pra diante.
Aquilo que eu nunca pude dizer a ela, ela já sabia, há 18 anos. Além de tudo que ela sempre foi, ainda era genial. Ah, mãe! Sacanagem! Aí tu me quebra todo de orgulho!
Eu nunca pude te dizer, mãe, o quanto eu sou grato por tudo que você me fez. Eu nunca pude te dizer o quão orgulhoso eu sou por ter sido agraciado, apesar de pouco, pelo teu convívio e ter sido formado – e transformado – pela pessoa que você foi.

Parabéns, Dona Dê! Lá se iriam 61 anos do sorriso mais lindo e fácil que já conheci na vida – espelho daquilo que eu sempre quis ser, pra mim e pros outros.
A saudade mudou um pouquinho, já que a rotina muda; a gratidão, nunca. Feliz aniversário, Mãe, e Muito Obrigado por tudo!

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