Dos aprendizados com experiências de quase morte

Eu nunca fui um cara de muita sorte com acontecimentos. Murphy sempre foi uma criatura pouco gentil comigo; sempre que algo ruim pode acontecer, ela acontece. E geralmente, da maneira mais destrutiva possível. A parte boa nisso é que geralmente eu fico com alguma lição da história. Até já me acostumei a me ferrar de vez em quando, seja lá qual a maneira. Entretanto, às vezes as coisas vão um pouco longe demais e eu fico pensando que esse azar uma hora me leva pra trocar uma ideia com aquele japonês da Yoki.

Era um sábado à tarde, tempo chuvoso, frio. Estúdio pra organizar, meus instrumentos pra regular, casa pra limpar, roupa pra lavar. Vontade? Nenhuma. Na oficina, duas guitarras de clientes: uma Stratocaster pra blindar e uma Les Paul pra regular as oitavas e o braço. Trabalho pra fazer eu tinha; me faltava vontade, mas pensei que o trabalho manual com a madeira iria me ajudar a limpar a pilha de estrume que eu tinha acumulado na cabeça.

Desmontei a Strato inteira. Tirei cordas, ponte, pus o hardware de molho no anticorrosivo. Preparei a tinta magnética, a fita de cobre. Retifiquei os trastes e deixei a madeira do braço hidratando. Observava cada milímetro da madeira trabalhando. Um knob ou outro pra trocar, talvez até um ajuste fino fosse necessário, mas a guitarra com certeza ficaria pronta pro show da noite.

Ao retirar o escudo do corpo com os captadores, percebi um crime: apesar de serem três captadores single-coil, duas das piscinas cavadas no corpo da guitarra eram para humbuckers. Estava explicada a origem de tanto ruído, e me daria um pouco mais de trabalho pra fazer uma blindagem mais adequada: preencher aquele espaço restante faria com a madeira ajudasse a evitar a propagação de ruído. Eu precisaria de uma chapa estreita de mogno, e um trabalho de umas duas horas de colagem e vedação dariam jeito nisso.

Puxei a chapa da pilha à minha esquerda. Prendi no gabarito, marquei a medida. Serra tico-tico em mãos – primeiro corte certeiro. Segundo corte, descubro um nó da madeira que seria muito ruim pro som. Vou em busca de outra chapa, a mais de cima da pilha. Puxei a chapa e com ela vem um monte de poeira que me faz abaixar a cabeça para evitar a inalação; sinto algo no ombro esquerdo, próximo ao pescoço. Como não havia largado a serra da mão direita, solto ela de qualquer jeito sobre a bancada e dou um tapa no ombro. Voa pó pra todo lado, sinto uma dor absurda no ombro, como uma ferroada. Vejo um inseto marrom qualquer no chão; a visão estava atordoada pela dor e pelo pó e não me permitia ver o que era.
Sozinho na oficina, corri em busca de um espelho. O ferimento era pequeno, sangrava pouco. Limpei a região, espremi, tudo bem. A dor passou, a região parou de sangrar, ignorei.

Concluí meu trabalho com a guitarra e fui contente entregá-la à dona, que faria show com ela aquela noite. O show foi cancelado, e ela decidiu ir à outra festa. Me convidou, e como a cabeça não estava lá muito bem mesmo, decidi aceitar o convite.
Contei o susto aos amigos mais próximos que encontrei na festa, como de praxe, e ríamos juntos do ocorrido. Como balada não é o tipo de coisa que me agrada muito, lá pela uma da manhã a minha paciência já não existia mais. Estava triste demais pra me envolver com festa, decidi voltar pra casa.

Cheguei, deitei, dormi. Simples assim. Acordei sabe-se lá que horas, mas imagino que fosse algo em torno de três horas da madrugada.

Não conseguia respirar. Parecia que algo ou alguém me pressionava o peito com vontade, como se batesse com uma marreta sobre o peito. Doía do pescoço até à boca do estômago. O peito era a região mais dolorida. Decidi então correr até a cozinha e tomar água. Ao tentar sair da cama, o desespero: os dois braços absolutamente dormentes, não respondiam sequer ao comando pra retirar do caminho o edredon que me cobria.
Rolei da cama e fui caminhando até o corredor. A pressão parecia muito baixa, já que eu estava muito tonto. Com a porta aberta, passei reto. Bati com o rosto na parede em frente e caí.

Acordei depois, com o sol nos olhos. Tentei levantar, as pernas não respondiam. Meus braços não pareciam bem, mas eu já os movia. Por pura sorte (veja, alguma sorte eu tinha de ter), eu havia deixado o celular carregando na cama, mas numa extensão que estava ligada no estúdio, exatamente ao lado de onde eu caí. Puxei o telefone pelo fio e chamei o SAMU, balbuciando, praticamente. A voz mal saía; estava fraco e enxergava mal. O SAMU chegou voando (ou quase isso), arrombou a porta do apartamento. Tudo que consegui dizer foi “obrigado” e “levei uma picada de algo, acho que uma aranha”. E é o quanto lembro dessa história toda.

No meu histórico médico, consta a contaminação por veneno de aranha. O soro que me foi dado, pelos sintomas, foi para o ataque de uma aranha armadeira. Funcionou, ótimo. Pressão no atendimento pré-hospitalar: 7:5. Quatros doses de soro, vacina antirrábica, antiinflamatório para o ferimento. O médico discursava: “Com a pressão nesse estado, o teu peso e a amostra de veneno no teu sangue, você escapou de um infarto por um triz. Volta pra casa e pensa na vida, guri, que tu nasceu de novo!” e me dava indicações das próximas doses de soro. E lá vou eu, uma vez por semana, até a semana do meu aniversário (ao menos já tenho um presente: me ver livre dessas agulhadas malditas).

E foi assim que eu criei (mais) medo de aranha.

“Mas Léo, você disse que sempre tira lições das coisas ruins que te acontecem; o que saiu dessa?”
(…)
No meu celular, não conta na agenda o telefone “Pai”, “Mãe”, “Casa” ou qualquer coisa do gênero (não sei o porquê, só não pus esse tipo de coisa nele). A enfermeira já havia “fuçado” meu celular em busca de um contato, e obviamente não encontrou nada. Assim, quando acordei, ela perguntou pra quem ela ligava pra avisar que eu estava no hospital. Família, amigos, quem fosse.

Entrei e saí sozinho do hospital.
Acho que, no fundo, eu só queria ter um nome na ponta da língua pra dizer pra ela. Sem pensar; sem pestanejar. E eu não tinha.

E quase dois meses depois, eu ainda não tenho a resposta pra dar pra ela.

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3 pensamentos sobre “Dos aprendizados com experiências de quase morte

  1. Da próxima vez, mesmo que seja por desencargo de consciencia diga pra enfermeira Zeh – 8412-2153

  2. Ótimo texto, Léo! 🙂 Acho que experiências como esta são únicas e essencialmente individuais (o tal do “eu precisava passar por isso sozinho”). Ou foi apenas Murphy pregando mais uma de suas peças. Seja como for, o aprendizado é que vale…e nem sempre é dos mais positivos, ainda bem. Mais sorte e menos picadas de aranhas pra você! 🙂 Forte abraço!

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