Adeus, 2013! – E leve com você o que já fui.

Quando você é um sujeito de pavio-curto, com propensão a não se esquivar de conflitos – tendo por hábito abraçá-los, algumas vezes – e minimamente eloqüente nos seus momentos de ira, provavelmente terá, em boa parte dos seus amigos e conhecidos, admiradores dessa inflexibilidade, da sua capacidade de dizer o que pensa, indo direto ao ponto, evitando eufemismos. Desse seu jeito escroto, enfim.

Gente escrota é muito legal. Gente escrota é engraçada, porque diz às pessoas inconvenientes o que todo mundo tem vontade de dizer. Pessoas escrotas têm a coragem que nós não temos, ignoram as amarras sociais que nos impedem de falar com franqueza. E pessoas escrotas e eloqüentes não só fazem tudo isso, como ainda falam bonito no processo. Por isso tipos como o House fazem tanto sucesso. Porque essas pessoas são legais de se ver.

De se ver.

No momento em que é você a criatura voando na linha do radar daquele seu amigo escroto que todo mundo acha tão divertido – você inclusive -, na hora em que é você que ele fustiga com aqueles olhos raivosos, dardejando insultos antes mesmo de abrir a boca… ah, aí não é mais tão legal. Aí não é divertido. Aí ele deixa de ser aquele escroto eloqüente e é só um escroto. Não é mais seu amigo legal que tem histórias divertidas das vezes em que foi escroto. Não. Ele é só mais um escroto nesse mundo escroto cheio de gente escrota.

No cu dos outros é sempre tão refrescante…

Mas o negócio, meu camarada, é o seguinte: quem refresca cu de pato é lagoa. E um dia é o teu que tá na reta. É você que vai dizer algo, fazer algo, pensar algo, ou respirar de tal maneira que aquele escroto não vai gostar. E não é que ele tenha se aborrecido, ficado puto, tido um ataque ou qualquer coisa assim. Ele vai te dar um esporro mesmo estando perfeitamente calmo e passar a tocar um foda-se pra você simplesmente porque é um escroto. Ele é um escroto, porra! O que você esperava?

Gente escrota é escrota por uma razão bem simples: porque não dá aos outros muito valor. E algumas pessoas vão ficando mais e mais escrotas porque vão dando aos outros cada vez menos valor. É provável que isso tenha um limite. Deve haver um ponto a partir do qual não dê mais pra simplesmente desprezar as pessoas e seja necessário sentir por elas alguma outra coisa, qualquer coisa que faça com que elas valham algo. Ainda não enxergo esse ponto, tenho muita corda pra deixar correr até lá.

Nunca fui um cara muito bacana, mas ao menos tinha alguma noção das coisas. Eu dava às pessoas um certo valor, tinha algumas em alta conta, até. Considerava algumas pessoas importantes. E atualmente, o que eu faço? Não faço! Me desfaço! E pelos motivos mais estúpidos, mais rasteiros, mais superficiais. Antes alguém precisava me irritar excessivamente para que eu resolvesse que não havia mais condições de conviver com aquele ser humano. Atualmente, qualquer fagulha de irritação me faz ligar o foda-se em potência máxima. Ninguém mais parece suficientemente digno de receber indulgências.

Mas a voz, aquela voz na minha cabeça que me admoestava com severidade por esse tipo de coisa, parece ter entrado de férias. Ou resolveu cantar em outra freguesia, numa que não dê tanto trabalho. Nem me arrepender eu consigo. Nos momentos em que me ocorre que eu poderia telefonar pr’aquele amigo com quem fui escroto há algum tempo, ou mandar um e-mail àquela amiga que nunca entendeu o que fez de errado para tomar de mim patada tão repentina, tem sempre uma outra voz que diz “Ah, que se foda.”

Aí eu relembro as últimas conversas que tive com essas pessoas, que só não partiram para a troca de insultos porque elas tiveram o bom-senso de se retirar com a elegância que me falta, e uso isso pra alimentar essa gigantesca fornalha que sopra grossas nuvens negras de raiva dentro do meu sistema, mantendo-o alimentado e ativo.

E em qualquer canto desse complexo, afogado nesse torrencial de sentimentos desagradáveis que virou a minha vida – porque antes eu tinha momentos de raiva, agora eu tenho raiva, pura e simples -, tem aquele cara que grita “Ô, Léo, esse aí não é você”. Mas ele está mais e mais enganado a meu respeito a cada dia que passa.

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