Pague a conta

Saía pela estrada, pensativo, caminhando em desespero
Pensava na sua vida já perdida, amor, família, fé, dinheiro
Deixava a paz todo dia atrás da porta
Segundo o rumo de uma vida torta
Contava as horas só pra ver anoitecer
Pra no fim do dia ele só perceber
Um dia a menos na conta.

Rumando pelo espaço, frustrado, uma barata tonta
Rotina falsa, amor dissimulado, e uma esposa sonsa
Olhando quase como um estranho
Almoço e janta, cama, mesa e banho,
Contava as horas de sono sem querer
Pra ao acordar ele só perceber
Um dia a menos na conta.

Mantinha a cabeça sempre erguida, mas com muito esforço
Era um zumbi escravizado, um zé coitado, um corpo semi-morto
E expurgava sua raiva no banho
Gritando um ódio que não tem tamanho
Enchia cara todo dia ao entardecer
Pra no final só conseguir dizer
“Garçom, me traz a conta?”.

Ela acordava todo as cinco e meia, as seis estava pronta
Cabelo, filho, mesa posta, pé no salto e até lista de compras
E corre pro trabalho, procurando vantagem
Escondendo as lágrimas na maquiagem
Olha os ponteiros rodarem sem dó
O dia passou e só sobrou o pó
De um dia a menos na conta.

Seu coração enfraquecido, tão sofrido, não aguentava mais
Insandecido, louco, corta os pulsos, procurando paz
No fim da vida é que ele percebeu
Que em todo esse tempo só tempo ele perdeu
E olha pra trás agora, arrependido,
Por não ter sorrido, amado, vivido,
E uma vida inteira na fatura
Não tem mais jeito, a realidade é dura
E só a morte (veja que falta de sorte)
Só a morte
Só a morte é que cobre a conta.

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Da procrastinação

Perdi a conta de quantas vezes ignorei minhas tristezas. 
Larguei de mão a esperança de saber quantas vezes abstraí minhas frustrações. 
Mas quando e onde será que vou ter que enfrentar esses demônios? 
Talvez por isso haja fantasmas na minha história. 
Será que eles vão voltar pra me assombrar? 
Ou será que vou dar de frente com eles em algum momento inesperado, 
e ter de enfrentá-los sozinho e ferido, feito um leão velho abandonado? 
Cada vez que abrimos mão de resolver nossos problemas 
nossas pendências;
cada vez que a gente diz “deixa pra lá”. 
Onde é esse lugar tão longe que aceita tudo que de ruim mandamos? 
Onde fica “lá”? 
Será por isso que “lá” é o tom musical mais triste? 
Será que é por medo de encontrar tudo isso lá, 
acumulado, 
guardado, 
esperando pela sua derradeira vista e resolução, 
quando chegarmos a esse desconhecido lugar? 
Será que por isso que temos medo de morrer? 
Acho que nunca vou saber… 
Será que devia finalmente resolver, começar? 
Ou será que me basta sentar e pensar? 
Ou talvez isso fosse só me estressar… 
Aí fico pensando, quando esse dia chegar 
Que eu resolvo – ou talvez não – quando repousar 
Que por enquanto só me basta caminhar 
Pensando e passeando, inconsequente, inconsciente, dos problemas de hoje 
e dos dias de amanhã.
Mas quer saber? 
Deixa pra lá…

Da vida em prosa

Porque aperta tanto o peito
um amor ora desfeito
que já nem tinha razão?

Porque a tristeza, a agonia
de um amor que à revelia
me tratava com desdém?

Porque, por mais que eu chore
não esqueço um amor tão pobre
de carinho e compaixão?

Por mais que agora no fim,
eu diga “melhor assim”
porque sofro por saudade?

Porque, no olhar derradeiro
Ainda sofro por inteiro
por alguém que era só metade?

Será vaidade ou medo
(que sempre guardei em segredo)
de morrer sozinho, então?

Porque a dor lancinante
De se perder um amante
Que já nem possuía mais?

E agora, talvez entenda
numa auto-reprimenda
que o mundo não é gentil

Que romance nasce e morre
(e termina sempre em porre)
de forma nada sutil

E agora, talvez eu veja
que no fim, qualquer que seja
não era desamor que doía

É que pra quem tem coração
A vida é escrita em prosa
E esperança é só poesia.

Caminhos, descaminhos e um blues descabido

Eu preferia não passar mais por ali,
os olhos buscam sempre o tempo que vivi
e feito maquina do tempo eu me virava
buscava em sonho a vida simples que eu amava

Janela fria, alumínio escurecido
guarda um passado que finjo ter esquecido
me engano enquanto passo o tempo a me esgueirar
por entre dor, ansiedade, rancor, pesar

Não era nada, só um vulto na janela
o escuro dos cabelos dela a cintilar
e eu tinha a leve intuição que lá de dentro
alguém me via, contramão do meu olhar

E não importa o que houver, não abra a porta
se eu inventar de tocar a campainha
resista sem ceder a qualquer coisa que eu disser
faça mais força pra fechar que eu pra bater

e segurando forte, feche os olhos
e não respire muito forte, por favor
pra eu não ouvir sequer o som da tua vida
pra eu não lembrar por um segundo o teu calor

pra eu esquecer de vez daquele tempo de agonia
pra eu fugir do furacão em que me pus
porque hoje eu sei, ao te ver pela janela
não és mais nada;
Eras amor, viraste um blues.