Do Direito à Greve no Funcionalismo Público: Osvaldinho e a Mesada

Você é um pai de família chamado Osvaldo. Trabalha 8 horas por dia (sem contar as horas extras), e mais umas duas no trânsito.
O salário não é grande coisa, mas você faz das tripas coração pra não deixar faltar nada ao filho.
Você corta seus supérfluos. O jantar com a esposa já não é tão frequente, os passeios já quase não existem – afinal, a prioridade é o filho.

Osvaldinho, seu filho, acorda todos os dias ao meio-dia – com exceção das terças e quintas, quando ele tem natação e karate. Nos feriados prolongados, Osvaldinho vai à praia, porque a escola sempre “enforca” a segunda ou sexta-feira. Nas férias de fim de ano, Osvaldinho tem as férias maiores que as suas, então ele fica na casa que alugaram pro verão; enquanto você, Osvaldo, volta correndo pro trabalho, já que alguém precisa pagar pelo aluguel da casa e todos os custos das férias.

Osvaldinho volta de férias. Hora de comprar o material escolar. Você compra todos os livros (você não abre mão de oferecer a ele o mínimo necessário; nada pode faltar) mas Osvaldinho precisa abrir mão de algo, porque o dinheiro está curto. Lapiseira? Não, senhor! Nesse ano vamos de lápis e apontador. Caderno capa dura? Nâo precisa, a gente encapa os mais simples mesmo. Estojo do Ben 10? Nada disso! Reaproveita o da sua irmã mais velha, ué!
Osvaldinho não tolera, vai à loucura. Se sente injustiçado. Reclama que vai passar vergonha na escola, que seus amigos vão rir da cara dele.

Você, Osvaldo, então, tem uma ideia brilhante. Você daria uma mesada para que Osvaldinho pudesse comprar seus próprios supérfluos. Em troca, Osvaldinho teria algumas obrigações: lavar o carro no final de semana pra que os pais pudessem namorar um pouco por aí; lavar a louça após o jantar; entregar suas tarefas da escola feitas (e bem feitas!) todos os dias à noite para que os pais verificassem.

Osvaldinho aceita, feliz e contente. Recebe sua mesada e vai logo até à loja. Compra o estojo, os cadernos mais legais, as canetas mais bonitas, a lapiseira que mais parece um sabre de luz.

Entretanto, Osvaldinho não lava a louça da noite. Precisa apresentar os trabalhos da escola ao pai; se for lavar a louça, não vai dar tempo. Ele explica a situação, ao passo que você o permite deixar a louça para a manhã seguinte; já que ele sempre acorda tão tarde, não seria problema.

Osvaldinho aceita, novamente. Ele vai fazer as tarefas, e logo então vai dormir.

Quando a família se reúne para o almoço do dia seguinte, a louça está suja. Osvaldinho deixou para a última hora, diz que não deu tempo. Ele se chateia porque a família faz cara de bravo pra ele. Briga, xinga, e lava os pratos “daquele jeito”. A família come o almoço lembrando do cheiro do jantar.

À noite, você cobra Osvaldinho das tarefas da escola. Ele não apresenta; diz que não deu tempo porque precisou lavar a louça.

Você vai pra cama, desolado, e conversa sobre o fato com sua esposa. Chegam a um consenso: Osvaldinho precisa de modos. Não deu certo educá-lo pelo esforço, e talvez fosse melhor exigir um pouco mais dele.

No dia, seguinte, você e sua esposa conversam com Osvaldinho. Não vão lhe cortar a mesada, mas a cada falha dele, ele perde o valor proporcional daquela tarefa. Seria o justo, visto que Osvaldinho estava recebendo por elas, e a família contava com a colaboração dele, tanto para aliviar o peso que sua família carrega quanto para que ele possa aproveitar melhor seu tempo e crescer. Todos ganhariam, seja com a distribuição do esforço ou com o aprendizado.

No dia seguinte, Osvaldinho não está à mesa do café da manhã. Você estranha, vai até o quarto. Lá, encontra Osvaldinho amarrado ao lençol; uma ponta no braço, a outra no pé da cama. “Estou em greve de fome”, ele diz. Você o questiona, mas ele está irredutível. Diz que só sai dali para comer quando os pais desistirem essa história ridícula de desconto proporcional pelas falhas. E que antes disso, não voltaria também a lavar a louça ou o carro. “Mas você só lavou a louça uma vez, e bem mal lavada”, você ralha. Ele só esperneia, e segue irredutível na luta. Diz que os pais não o valorizam.

Você chega à conclusão, desolado, que seu filho é um caso perdido.

(…)

A esta altura da história, você deve estar achando Osvaldinho uma criança escrota e mimada. Eu também, na verdade. E eu vejo isso sempre.

Pois esta é a minha visão sobre a greve do funcionalismo público em geral no Brasil hoje. Greve? Pois que os funcionários públicos cumpram seu papel com o mínimo de qualidade antes. Só o mínimo. Ainda que os salários estejam aquém do que vocês, estão muito além do que todas as demais categorias no país. Recebem, pagos por nós, os “Osvaldos” da iniciativa privada, assistência diferenciada de educação; de saúde; de auxílios e apoios de todo tipo dos quais nós, os pagantes, não gozamos. Os “Osvaldos” da iniciativa privada estão cansados de pagar pelos seus luxos sem receber nada em troca.

A greve dos servidores públicos é justa? No contexto atual, não. Discorde, é direito seu. Mas antes de qualquer coisa, é preciso que cada um cumpra seu papel de forma bem feita, no prazo, e conforme o combinado com o seu contrato, inclusive quando foi aprovado em concurso.

Até lá, que a categoria se solte do pé da cama, encape seus cadernos e faça o favor de acordar antes do meio-dia como todo mundo. Ou isso, ou vai ser muito difícil que os “Osvaldos” aqui de fora da redoma onde vivem tenham alguma simpatia pelas suas agruras ou pedidos de “Osvaldinhos” mimados.

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