Sobre não se esconder de si (ou “Cale a boca”)

Não se manifestar sobre um tema, não dar sua opinião, não te faz uma pessoa menor. Dar uma meia opinião, sim.

Falo especificamente sobre os temas sobre os quais você, voluntariamente, decide opinar.
Uma opinião, ao contrário de uma mensagem, não precisa de um receptor para fazer sentido. É algo seu, que já existe, e que você sente necessidade de externalizar. 
Numa opinião, o receptor é um ser voluntário – e isso muda tudo; você não pode se dar ao luxo de ser “meio-você”.

Se você pretende dar sua opinião, agarre-se a ela e não se permita sentir-se ofendido pelo que vem a seguir, tampouco sinta-se diminuído ou desencorajado por sua opinião desagradar ou parecer ofensiva a pessoas que você ama. 
É a sua opinião, seu pensamento, sua essência. Se o seu medo ou vergonha são maiores que isso, ou você não está seguro de sua opinião, ou não é seguro sobre o que você é.

Em ambos os casos, é melhor ficar calado.

Mas se você não se esconde atrás da cortina do medo e da vergonha como uma criança, que deixando os pés à mostra, se esconde apenas de uma ideia, não se permita o anonimato; a institucionalização do seu nome; o uso de pseudônimos (exceto para – no contexto social em que seja estritamente necessário – falar sobre temas legalmente proibidos) e as meias-palavras.

São artifícios baixos, dignos apenas de enroladores, canalhas, velhacos e mentirosos.

Se você tem essa vontade e/ou necessidade íntima de se expressar, assuma os riscos e ônus de ser quem você é. 
Ou cale-se.

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Dos sonhos bizarros e filmes trash

Eu tive um sonho essa noite que dava um filme trash da melhor (???) qualidade, provavelmente influenciado por aquelas imagens de terror envolvendo coelhos no período de páscoa.

Eu estava sentado no chão de uma varanda brincando com uma criança. Nos entretínhamos, eu e ela, com dois gatos e 6 coelhos brancos. Um dos coelhos dormia confortavelmente no cantinho, apoiado num xaxim de samambaia.

A criança sai, os gatos vão atrás dela. Os coelhos ficam por ali, zanzando, cheirando uns aos outros. O dorminhoco não move uma pestana sequer. Decido incomodar o pobrezinho, e passo a mão nas orelhas dele, deitando elas para trás em direção às costas dele.

(Agora as coisas ficam esquisitas)

O coelho pula no meu braço, e gruda na minha blusa de lã com 5 unhas (sim, eu consegui contar) longas e afiadas, que cravaram imediatamente por entre a trama de fios e corta a pele superficialmente, feito arranhão de gato. Eu tento chacoalhar pro coelho largar, e ele mostra os dentes, puxando o corpo em direção ao meu braço.

Os dentes pareciam dentes de gato: caninos longos e pontiagudos, e a mandíbula se abria muito mais que a de qualquer coelho que eu já vi. No susto, eu levanto, dou uma sacudida no coelho e chuto a aberração pra fora da varanda. Ele cai e corre pra direção contrária à minha, em direção a um galpão nos fundos da casa (pensando cá agora, a planta da casa tem tudo a ver com a casa da minha avó Porfíria), como se tivesse ficado com medo depois do bico que tomou.

Como eu não ia deixar aquela naba rondando a minha casa por nada nesse mundo, dou a volta na casa pra ver onde ele estava. Uma máquina de costura velha, abandonada no quintal, e o coelho embaixo. Dois cachorros que estavam ali próximos se afastam dele, aparentemente também com medo – um preto e um malhado, preto com marrom. Tento me aproximar do bicho e ele abre aquela boca bizarra na minha direção e se arma pra dar um bote como se fosse uma aranha, com as pernas recolhidas.

Não achando muito prudente a aproximação, corro pra dentro de casa e procuro desesperadamente pela espingarda sobre os dois armários, da sala e do quarto. O armário é alto, quase despenco. Arrasto o sofá, subo no braço e pego a bendita. Carrego com os cartuchos que estão sobre a mesa de jantar (não sei o que eles estava fazendo ali) e vou em direção à porta.

Ao sair pela varanda, encontro o cachorro preto todo sujo de sangue, comendo parte do coelho, agora já sem o couro. A parte que sobrou do coelho ainda se mexia, carne aparente e despedaçada pelas bocadas do cão faminto, tentando se arrastar em minha direção naquele momento de sobrevida.

E eu, rindo feito um idiota da cara do coelho malvadão todo estrupiado, disparo por acidente a arma dependurada no braço e arranco meu pé direito.

Fim.

Pague a conta

Saía pela estrada, pensativo, caminhando em desespero
Pensava na sua vida já perdida, amor, família, fé, dinheiro
Deixava a paz todo dia atrás da porta
Segundo o rumo de uma vida torta
Contava as horas só pra ver anoitecer
Pra no fim do dia ele só perceber
Um dia a menos na conta.

Rumando pelo espaço, frustrado, uma barata tonta
Rotina falsa, amor dissimulado, e uma esposa sonsa
Olhando quase como um estranho
Almoço e janta, cama, mesa e banho,
Contava as horas de sono sem querer
Pra ao acordar ele só perceber
Um dia a menos na conta.

Mantinha a cabeça sempre erguida, mas com muito esforço
Era um zumbi escravizado, um zé coitado, um corpo semi-morto
E expurgava sua raiva no banho
Gritando um ódio que não tem tamanho
Enchia cara todo dia ao entardecer
Pra no final só conseguir dizer
“Garçom, me traz a conta?”.

Ela acordava todo as cinco e meia, as seis estava pronta
Cabelo, filho, mesa posta, pé no salto e até lista de compras
E corre pro trabalho, procurando vantagem
Escondendo as lágrimas na maquiagem
Olha os ponteiros rodarem sem dó
O dia passou e só sobrou o pó
De um dia a menos na conta.

Seu coração enfraquecido, tão sofrido, não aguentava mais
Insandecido, louco, corta os pulsos, procurando paz
No fim da vida é que ele percebeu
Que em todo esse tempo só tempo ele perdeu
E olha pra trás agora, arrependido,
Por não ter sorrido, amado, vivido,
E uma vida inteira na fatura
Não tem mais jeito, a realidade é dura
E só a morte (veja que falta de sorte)
Só a morte
Só a morte é que cobre a conta.

Da procrastinação

Perdi a conta de quantas vezes ignorei minhas tristezas. 
Larguei de mão a esperança de saber quantas vezes abstraí minhas frustrações. 
Mas quando e onde será que vou ter que enfrentar esses demônios? 
Talvez por isso haja fantasmas na minha história. 
Será que eles vão voltar pra me assombrar? 
Ou será que vou dar de frente com eles em algum momento inesperado, 
e ter de enfrentá-los sozinho e ferido, feito um leão velho abandonado? 
Cada vez que abrimos mão de resolver nossos problemas 
nossas pendências;
cada vez que a gente diz “deixa pra lá”. 
Onde é esse lugar tão longe que aceita tudo que de ruim mandamos? 
Onde fica “lá”? 
Será por isso que “lá” é o tom musical mais triste? 
Será que é por medo de encontrar tudo isso lá, 
acumulado, 
guardado, 
esperando pela sua derradeira vista e resolução, 
quando chegarmos a esse desconhecido lugar? 
Será que por isso que temos medo de morrer? 
Acho que nunca vou saber… 
Será que devia finalmente resolver, começar? 
Ou será que me basta sentar e pensar? 
Ou talvez isso fosse só me estressar… 
Aí fico pensando, quando esse dia chegar 
Que eu resolvo – ou talvez não – quando repousar 
Que por enquanto só me basta caminhar 
Pensando e passeando, inconsequente, inconsciente, dos problemas de hoje 
e dos dias de amanhã.
Mas quer saber? 
Deixa pra lá…

Da vida em prosa

Porque aperta tanto o peito
um amor ora desfeito
que já nem tinha razão?

Porque a tristeza, a agonia
de um amor que à revelia
me tratava com desdém?

Porque, por mais que eu chore
não esqueço um amor tão pobre
de carinho e compaixão?

Por mais que agora no fim,
eu diga “melhor assim”
porque sofro por saudade?

Porque, no olhar derradeiro
Ainda sofro por inteiro
por alguém que era só metade?

Será vaidade ou medo
(que sempre guardei em segredo)
de morrer sozinho, então?

Porque a dor lancinante
De se perder um amante
Que já nem possuía mais?

E agora, talvez entenda
numa auto-reprimenda
que o mundo não é gentil

Que romance nasce e morre
(e termina sempre em porre)
de forma nada sutil

E agora, talvez eu veja
que no fim, qualquer que seja
não era desamor que doía

É que pra quem tem coração
A vida é escrita em prosa
E esperança é só poesia.

Caminhos, descaminhos e um blues descabido

Eu preferia não passar mais por ali,
os olhos buscam sempre o tempo que vivi
e feito maquina do tempo eu me virava
buscava em sonho a vida simples que eu amava

Janela fria, alumínio escurecido
guarda um passado que finjo ter esquecido
me engano enquanto passo o tempo a me esgueirar
por entre dor, ansiedade, rancor, pesar

Não era nada, só um vulto na janela
o escuro dos cabelos dela a cintilar
e eu tinha a leve intuição que lá de dentro
alguém me via, contramão do meu olhar

E não importa o que houver, não abra a porta
se eu inventar de tocar a campainha
resista sem ceder a qualquer coisa que eu disser
faça mais força pra fechar que eu pra bater

e segurando forte, feche os olhos
e não respire muito forte, por favor
pra eu não ouvir sequer o som da tua vida
pra eu não lembrar por um segundo o teu calor

pra eu esquecer de vez daquele tempo de agonia
pra eu fugir do furacão em que me pus
porque hoje eu sei, ao te ver pela janela
não és mais nada;
Eras amor, viraste um blues.