Coringa se passa mesmo em 1981?

(Esse post contém um, ainda que irrelevante, mini-spoiler sobre Coringa. Repito: é irrelevante, porém fica aí o aviso)

Há uma parte do filme em que aparece um ‘split-screen’ com vários canais de TV ao mesmo tempo, passando vários noticiários.
Quando aparece muita coisa ao mesmo tempo na tela, eu sempre fico caçando easter eggs, e dessa vez não foi diferente.
Eram muitas telas (36, eu acho), então não consegui ver todas a tempo; mas meu olho já é treinado pra ler bem rápido, então eu peguei algumas referências ali.
Uma em especial me chamou a atenção (linha do topo, segundo quadro da esquerda para direita) que mostrava duas frases: “Don’t even try it.” e terminava com “The thrill can kill.”
Fui à caça desse negócio, e descobri que a origem dessas frases (na verdade, desta cena toda) é uma campanha de prevenção ao uso de drogas (em especial, o crack) que o governo dos EUA publicava em sessões de cinema, antes dos filmes.
O filme Coringa é cheio de referências, e a internet está aí cheia de informação pra vocês descobrirem que referências são essas, não vou me alongar nisso. Ocorre que Coringa, segundo as referências todas, se passa em 1981.
Só que o vídeo da campanha que eu mencionei (esse do link) só foi veiculado entre 1987 e 1990.

E agora, José? Foi um erro de datação, uma indicação de que o ano não é de fato 1981, uma lembrança aleatória?

Enfim. Era isso.

(Viu? Spoiler mais irrelevante do mundo.)

 

Da Doação da Ilha do Campeche (mas hein?)

Há uns anos, no cartório onde eu trabalhava (já fiz de tudo nessa vida, porque passar fome não é muito minha vibe) apareceu um maluco querendo transferir para si a propriedade de nada mais, nada menos que a Ilha do Campeche.
O jovem mancebo tinha até um documento de doação da Ilha, e não parecia uma falsificação porca como já tinha sido vista lá no cartório.

O signatário do documento (ou o doador, como queiram) era um ex-vereador de Floripa (à época já falecido), e doava a ilha pra mãe dele.

Entre idas e vindas do jovem mancebo ao cartório, descobriu-se que: a mãe do guri era amante do tal vereador, e por ser um relacionamento extraconjugal longo dele, em dado momento ela botou o amante na parede.
Argumentava que caso ele morresse, a esposa ficaria com tudo, e ela à míngua.

O Vereador morreu, a mãe do guri lembrou do tal documento e deixou pro guri como herança, já que ela não fez posses durante a vida.

Pois bem: eis que a véia morreu e o guri foi no cartório passar a Ilha do Campeche pro nome dele, legal e legitimamente, como bom estudante de Direito, como ele não perdeu a chance de deixar claro (surpreendendo um total de zero pessoas no recinto) e argumentando fortemente quando lhe foi explicado que a mãe dele tinha sido enrolada lindamente, já que ilhas são de propriedade da União e inalienáveis.

De herança, portanto, ele ficou só com um Atestado de Cafajeste (de papel timbrado da prefeitura e tudo) e a cara de trouxa.

Dos Devaneios Sobre a Morte #3

No dia em que eu morrer, quando uma ou outra pessoa estiver fuçando nas minhas coisas, esta certamente vai dar de cara com um dos meus caderninhos de anotações.

Vai ser um momento sublime.

Na mesma página, flutuando, um trecho de um poema – desses que eu começo e nunca termino -, a lista de compras do sacolão e o mapa de disjuntores do meu apartamento.

E nesse momento, assim desejo, não quero do meu amigo ou quem quer que seja nem risos nem lágrimas.

Quero os olhos semiabertos, a testa franzida, bochechas contraídas e a única expressão a me definir toda a existência:

“Mas o que diabos esse maluco tinha na cabeça, meu Cristo?!?!”

Das Mentiras Úteis e Confortáveis

O curta-metragem “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, que eu assisti umas trezentas vezes na escola, foi eleito pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – como o melhor documentário brasileiro de todos os tempos.

Só tem um problema: esse documentário de 13 minutos é uma mentira completa. Nem mesmo o lugar retratado é o que se diz ser.

O Brasil é isso: as pessoas gostam de ser enganadas, desde que o que seja mostrado lhe sirva ao propósito.

Sabe aquele indicador de performance maravilhoso num gráfico lindo que você é cobrado a apresentar num powerpoint todo mês pra um gerente só porque ele ‘precisa de um número’, mas que no fundo não mede nada – e todo mundo sabe disso, mas joga o jogo? Pois é.

Uma mentira bem estruturada agrada egos, e egos deixam pessoas felizes no seu confortável ciclo de mentiras. E a verdade, já dizia André Dahmer, é um acordo entre mentirosos.

A rigor seria isso.

Autoconfiança é tudo.

Ontem eu tive uma lição de autoconfiança fazendo o trajeto Barreiros – Campinas.

Bem no meio do trajeto, no Monte Cristo, há um Ferro Velho; ao lado, uma oficina que vive largando na rua ao lado os restos mortais de algum carro cujo destino não lhe foi gentil. Tem de tudo: de Fiat 147 com mais ferrugem que lataria até Mercedes que capotaram até ficar do tamanho de um Ford Ka. Ontem era a vez de um Fiesta, modelo do mais antigo possível. Estava lá, destroçado, jogado às traças depois de ter suas vísceras quase que completamente removidas.

Era algo em torno de 17:30, e a escola ali próxima liberou os alunos naquele exato momento.
No meio daquele bando de moleques correndo de mochila nas costas, sai lá do meio um fulaninho de uns 10 anos, no máximo. Vai em direção ao carro, e com a maior naturalidade do mundo solta a pérola pros amigos:
“Mano, vou virar esse carro!”

(Aqui cabe um adendo: o carro estava realmente depenado. Não tinha mais nada dentro que realmente pesasse algo; era só a carcaça. Some-se a isso o fato do carro estar de lado, apoiado sobre a porta do motorista, e não sobre os eixos. Mas ainda é uma carcaça de um carro contra uma criança de 10 anos, magrela de dar dó. Praquela galerinha lá acompanhando a tentativa de façanha dele, ele era só um maluco biafrento fazendo cagada – e era mesmo.)

O guri levou um cascudo de um outro, maiorzinho, que deu lá uma ranhetada e o puxou pela mochila. Ele se desvencilhou, largou a mochila na mão do maior e se pôs a tentar virar o carro puxando ele de baixo pra cima pela janela, esta já sem vidros.

Eu, parado, em cima da moto, assistindo a cena, porque ainda não estava acreditando no tamanho da audácia do fedelho.

Pois bem: o carro deu lá três ou quatro balançadas, falseou e começou a querer virar pro lado do menino. Eu pensei até que o Fiesta ia transformar o guri em patê e quase fui ajudar. Aí ele deu o último gás na merenda das 15:30 que estava ali armazenada, fermentando dentro dos 30 kg de coragem e falta de noção dele, e empurrou com o que tinha de força sobrando.

Pois bem, o carro virou, fazendo um estrondo danado, que era basicamente o som da vitória do moleque.

Ele voltou pro maiorzinho, agora com peito de pombo. Pegou a mochila, e proclamou a frase que gravarei para sempre em minha memória:
“Já dizia Jesus: os humilhados serão exaltados!”

(…)

Mentira. Ele puxou a mochila da mão do outro guri, e falou literalmente cuspindo:
“CHUPA, CUZÃO!”

E saiu com a molecada em direção a sei lá onde, pulando e rindo mais feliz que gordo de camiseta nova.

(O dono do Ferro Velho saiu correndo atrás deles também, mas eu não acompanhei esse episódio. Lamento.)

Na época de vocês, eu não sei, mas na minha época esse guri tinha virado o novo rei da rua.

A rigor seria isso.

Cantando o Hino Nacional na Escola: uma Gincana

Sobre cantar o hino na escola, eu proponho uma gincana interescolar:

1- junte todos os alunos do último ano do ensino médio;
2- conduza os alunos ao pátio da escola às 7 da manhã;
3- dê a cada um deles um exemplar do bom e velho amansa-burro;
4- todos iniciam a cantoria do nosso belo hino nacional (é bonito mesmo esse negócio, não dá pra negar);
5- a cada palavra que UM aluno não entender, este levanta a mão e todos param de cantar;
6- ele, sem auxílio de ninguém, procura o verbete no Aurélio em punho e recita em voz alta a todos os presentes;
7- voltam todos a cantar, ‘Da Capo’, a cantoria do hino, e repete-se o processo até findarem-se os versos;
8- A escola que terminar de cantar o hino nacional – sem dúvidas e sem erros – antes do almoço ganha o direito de levar o(a) Professor(a) de Língua Portuguesa pra almoçar num lugar bacana, desses que o salário dele não é capaz de pagar desde que o Brasil existe.

Me parece justo.

Chet Baker da Gastronomia

Diz uma lenda urbana que o Chet Baker tinha um timbre único no trompete por conta de uns dentes que lhe faltavam, fruto de uma surra que levou dos traficantes que vendiam heroína pra ele.

Eu tenho uma boca do fogão com defeito já há uns 6 anos, mais fraca que as demais, mas perfeita pra molhos e banho-maria.

Gosto de pensar que a minha preguiça de consertar o fogão vai me transformar numa espécie de Chet Baker da cozinha.

Sigo fazendo miojo na boca ao lado.

Ah, e eu tenho 36 dentes, porque acumulei os sisos da família toda.

E o Chet Baker que cuide da vida dele!

Humanidade vs. Moralidade: Lula e o enterro do irmão

Pra quem tem a memória curta, eu refresco:

Vavá era o irmão de Lula que abria as portas do Palácio para os empresários em nome do irmão, tendo sido inclusive grampeado por isso. É citado (e ainda era investigado) em operações da PF que envolviam o ex-presidente.

Pra quem já esqueceu, era ele um dos operadores de comunicação – vulgo pombo-correio – de algumas das transações que atingiram em cheio a Petros, a Petrobrás e empréstimos do BNDES cujo pagamento nunca mais veremos a cor.

Pouco mais de 2 antes do impeachment da Dilma, mantinha um escritório no RJ onde trabalhavam 14 pessoas prestando o serviço que ele chamava de “Assessoria Social” para estas transações com o Governo Federal.

Nunca emitiu uma nota fiscal, nunca faturou um centavo, e até hoje “ninguém sabe” quem pagava os 14 funcionários.

Morreu, mas não virou santo.

Lamento, sim, o fato de um irmão não poder enterrar o outro, por pura questão de humanidade. É uma ocasião única de despedida, e obviamente seria um ato de compaixão deixar que Lula nela estivesse presente.

Entretanto, como contribuinte, me causaria uma revolta gigantesca ver o dinheiro suado dos impostos, estes pagos por um povo já tão desgraçado, gastos na logística de levar um bandido ao velório de outro.

A vida é feita de escolhas, e cada um é responsável pelas suas e suas consequências.

Que chore a dor dele, que é genuína, no lugar onde se encontra. Na minha opinião não só é justo com ambos – Lula e o irmão – e suas histórias de vida, mas também com quem paga por essa pataquada toda sem receber nada em troca.

Num país que enterra pessoas em cova rasa todo dia por falta de recursos, desperdiçar tais recursos dessa forma seria um insulto.

Humanidade, sim; mas sem Moralidade, não.

Nem tudo é o que parece

Eu nunca fui com a cara da Dilma, mas gente, vamos lá: o decreto que ela assinou considerando como ‘desastre natural’ a desgraça de Mariana NÃO tira a responsabilidade da Samarco sobre o ocorrido.

Facilita, sim, o acesso das pessoas da região ao saldo do FGTS para recuperação dos danos.

A responsabilidade pela recuperação não é das vítimas, mas na hora do desespero, está longe de ser má ideia.

Político é um bicho estranho, mas para de botar chifre em cabeça de cavalo, que vocês tão passando vergonha.

Bando de tapado.

Em tempo: as campanhas de apoio à região de Brumadinho todas receberam mais ajuda que o esperado. Se a política não ajuda – como sempre -, ao menos ainda resta – ainda que pouca – uma esperança no povo.

Sobre a Lei de Acesso à Informação (ou “Ler as Fontes Primárias é Necessário”)

Tia Salete da 5ª série ataca novamente.

No meio de todo esse desespero pela tal “mudança” da Lei de Acesso à Informação, decidi ler as fontes originais do caso.

Acima de tudo, é importante lembrar:  a Lei não foi alterada, apenas o Decreto que a regulamentava.

Como a luta contra a má interpretação de texto no mundo é uma luta vã, porém divertida, eu vou cair nesse erro de novo.

A Lei Nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, continha, em seu parágrafo 1º do Art. 27 a seguinte redação:

“§ 1o A competência prevista nos incisos I e II, no que se refere à classificação como ultrassecreta e secreta, poderá ser delegada pela autoridade responsável a agente público, inclusive em missão no exterior, vedada a subdelegação.”

Sendo assim, cabe definir, a fim de evitar ambiguidades, o que é um Agente Público no âmbito do Direito Administrativo, dada pela Lei de Improbidade Administrativa – 8.429/1992:

“Agente Público é todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função nas entidades mencionadas no artigo anterior.”

O Decreto nº 7.724, de 16 de maio de 2012, regulamentava a Lei, com o seguinte redação em seu artigo 30, parágrafo 1º:

“§ 1o É vedada a delegação da competência de classificação nos graus de sigilo ultrassecreto ou secreto.”

O Decreto 9.690, de 23 de janeiro de 2019, altera a redação do parágrafo anterior (entre outros itens), para esta forma:

“§ 1º É permitida a delegação da competência de classificação no grau ultrassecreto pelas autoridades a que se refere o inciso I do caput para ocupantes de cargos em comissão do Grupo-DAS de nível 101.6 ou superior, ou de hierarquia equivalente, e para os dirigentes máximos de autarquias, de fundações, de empresas públicas e de sociedades de economia mista, vedada a subdelegação.”

Na prática, o Decreto original permitia a delegação pela Autoridade Superior de cada órgão a qualquer agente público. O que o último decreto fez foi especificar, ou seja, restringir os Agentes Públicos a que se destinam as delegações.

Sempre bom lembrar que entre as funções do Decreto, a principal é a de regulamentar a Lei, criando os meios necessários para sua fiel execução, sem, contudo, contrariar qualquer das suas disposições ou inovar o Direito, ou seja, sendo sempre secundum legem ou no máximo, praeter legem; jamais contra legem – e é por isso que a redação atual é ainda mais restritiva que a anterior, sendo benéfica sua mudança.

Repito o anterior: acima de tudo, a Lei não foi alterada, apenas o Decreto que a regulamentava.
Tanto a redação anterior quanto a atual já tem em seu conteúdo a obrigatoriedade de ciência e ratificação do Ministro de Estado com relação à classificação dada à informação, a ser feita num prazo máximo de 30 dias, no parágrafo 5º de seu artigo 30:

§ 5o A classificação de informação no grau ultrassecreto pelas autoridades previstas nas alíneas “d” e “e” do inciso I do caput deverá ser ratificada pelo Ministro de Estado, no prazo de trinta dias.

Como sempre, que sirva de lição: enquanto você delegar suas conclusões a jornalistas e agências de notícias, sem consultar as fontes originais, você estará sempre enganado – e geralmente desesperado.