Não sou guri de recado.

Há algo que eu não faço em ambiente de trabalho: anotar recados de telefonemas para colegas.
Eu tenho alguns motivos pra isso, e o principal é bem simples: o assunto não é comigo. Não tenho, portanto, que assumir a responsabilidade sobre uma informação cuja origem ignoro e cujo destino não me compete.

Hoje fui deliberadamente chamado de egoísta por isso. Pois bem: num ambiente onde há mais telefones celulares que fixos, que obrigação tenho eu, que trabalho sozinho na maior parte do tempo, de me responsabilizar pela comunicação alheia? A informação da ausência do funcionário destino da ligação não ficou clara no momento em que a chamada não foi atendida?
Ou será que essa frescura toda não passa de necessidade de se sentir importante por parte cidadão que originou a ligação?

Sinceramente, se há tão grande necessidade de comunicação urgente, não é o telefone fixo e um recado anotado que fará o serviço necessário.

Cada um que resolva os meandres de suas atividades, ué.

Gente melindrada do cacete.

Das hashtags e dos Capachos da Moral: #AgoraEQueSaoElas

Sobre a hashtag #AgoraEQueSaoElas e a intervenção (inútil, digo de antemão) social por ela proposta:

(Pra quem não sabe do que se trata: um colunista qualquer, um jornalista, ou qualquer zebra que escreve por aqui – do sexo masculino – deve ceder seu espaço para que uma mulher escreva em seu lugar durante uma semana. A justificativa é que as mulheres precisam de mais voz, pois não a possuem a contento na sociedade.)

Estas mulheres escrevendo no espaço de outras pessoas tem seus próprios espaços. Se não são lidas ou se são pouco ouvidas, a explicação é simples: não foram capazes de alcançar leitores ou ouvintes, e isso é incompetência em algum aspecto – divulgação, apresentação, forma ou conteúdo – e o sexo não tem nada com isso. Cabe a quem comunica atingir o seu público; ninguém lhe deve atenção só por sua condição, qualquer que seja ela.

O espaço está aí, pra qualquer criatura parcamente letrada escrever o que lhe der na veneta (exatamente como eu faço aqui para meia dúzia de amigos). Na internet, em periódicos de grande circulação, e até em palanques públicos. Façam uso à vontade, como já o fazem há muito tempo. Não é preciso calar ninguém pra isso.

Reclamar que as mulheres não tem voz num país em que a representante maior da nação é uma mulher, e que vem a público discursar dia-sim-dia-não (mesmo falando aquele caminhão costumeiro de asneiras) é cair no precipício do ridículo.

Só é preciso calar para fazer-se ouvir quando a mensagem é estapafúrdia ou quando o apelo à (suposta) autoridade é mais importante que a razão ou mérito; por conseguinte, calar a própria voz para cedê-la a alguém que tem a própria não é empatia – é subserviência.

(…)

(Mas como tudo tem um lado bom, teremos uma semana sem o Gregório Duvivier escrevendo. Gozemos deste pequeno prazer, ao menos.)

Das massas de manobra e do desrespeito ao indivíduo

Lá pelos idos de 2007 ou 2008, estava eu dormindo, no conforto da minha cama, quando meu celular toca. Já passava das 4 da manhã de sábado, e eu estava gripado e com febre.
Atendo o celular. O telefonema vinha de uma menina, amiga minha de Otacílio Costa, que tinha vindo pra Floripa pra uma festa. Passou mal. Bebeu mais do que podia, se entorpeceu com tudo o que podia e o que não podia, perdeu a carteira com documentos e dinheiro e não sabia a quem recorrer.

Naquele frio desgraçado, doente, saio da cama e vou buscar a amiga. De moto. Levo ela até a minha casa. Dou uma roupa pra ela poder tomar um banho, e enquanto isso eu jogo a roupa da menina na máquina, que tinha vômito até pelo avesso. Ela dorme na minha casa, e ao acordar, bem… precisa dar um jeito de ir embora.

Eu levo ela até a rodoviária pra pegar um ônibus pra casa. Como perdeu a carteira com tudo, paguei a passagem dela até Lages; era o que meu dinheiro dava. De lá, o pai dela ia buscar. Passei o resto do mês com 4 reais na carteira e abastecendo a moto com ticket alimentação.

Sou um herói? Um ‘gentleman’? Não, porra! Ajudei uma amiga – assim como muitos dos meus amigos já me safaram de situações muito – mas muito! – piores que essa.

Mas alguém decidiu que hoje era dia de me dar pecha menos lisonjeira.

(…)

Eis que hoje eu saio do trabalho, e há uma manifestação exatamente no meu caminho. A PM já estava lá, controlando o fluxo, orientando os manifestantes, aquela coisa toda. Um pouco de gente grita, um pouco de gente se irrita, outro pouco de gente buzina, e por aí vai; aquela zona que qualquer manifestação provoca. Parei a moto na lateral da pista e fiquei esperando eles passarem e a PM liberar o transito.

Em outros tempos, eu ia descer a mão na buzina; mas de uns tempos pra cá eu decidi parar de bater boca com “Social Justice Warriors” porque eu tenho preguiça de discutir com gente burra, que é a categoria onde a grande maioria dessa galera se enquadra (se você se ofendeu com isso, o botão de ‘unfriend’ é logo acima e a porta da rua é a serventia da casa). Então fiquei ali esperando ‘a banda passar’.

A manifestação finalmente começa a passar exatamente na minha frente e eu começo a entender os gritos dos manifestantes. Lembro de dois:

– “Eu amo homem! Amo mulher! Tenho direito de amar quem eu quiser!”
Beleza, champs, ‘tamo junto! Quem sou eu pra dizer de quem tu tem que gostar, né? Nesse momento, por exemplo, em que estou querendo ir pra casa, eu não gosto de você. Mas isso não tem nada a ver com a sua sexualidade, e sim com a minha vontade gigantesca de ir pra casa porque eu tenho que fazer faxina.

E a clássica:
– “Fascistas! Machistas! Não passarão!”
Eu não sei quantos fascistas ou machistas estavam na fila, mas como os manifestantes estavam trancando a pista, eles não passariam mesmo.

Só que essa segunda frase começou a ser gritada meio perto demais de mim. Tipo… perto o suficiente pra embaçar a viseira do meu capacete. Eu fiquei um pouco nervoso, já queria descer da moto e enfiar uma muqueta na orelha daquela cretina que tava gritando na minha orelha, quando reconheci a infeliz. Era a tal amiga de anos atrás, que descrevi logo acima; não a via desde 2012, quando a encontrei no velório de um amigo em comum.

Respirei fundo, tirei o capacete, cumprimentei a cidadã pelo nome. Ela deu um passo pra trás, talvez assustada pelo meu movimento, achando que eu fosse agredí-la ou coisa assim. Eu pedi pra relaxar, apoiei o capacete no retrovisor e apontei pro meu próprio rosto com as duas mãos com aquele movimento de “Oi? Tá me reconhecendo não?”. Ela inclina o corpo adiante de novo, dá mais um passo. Eu crente que ia me cumprimentar ou coisa assim, e ela puxa uma outra guria pela mão e grita, agora na minha fuça sem capacete, o mesmo bordão repetido acima.

Eu tolero gente burra. Não gosto, mas tolero. Eu tolero gente estúpida, também (até porque eu sou bastante, também), mas não aturo ignorante.

(Nota: Enquanto escrevia isso, fui descobrir que é a tal Marcha das Vadias. Daqui pra baixo estou escrevendo consciente do movimento que lá ocorria.)

Vou descer o cacete em feministas por conta disso? Não. Vou descer o cacete em gente burra, mesmo. Em gente influenciável. Em gente que aceita ser massa de manobra de gente acéfala. Em gente “intelectualmente” desonesta. Em gente mal intencionada.

Segui meu caminho pra casa, em paz com a minha consciência, mas confesso: com raiva. Muita raiva. Eu entendo perfeitamente que o tratamento reservado a alguns estratos sociais não é o mais digno, nem o mais perfeito, e provavelmente também não o mais justo.

Isso não te dá o direito de generalizar o comportamento, a conduta ou o caráter dos indivíduos.

Se o seu princípio de luta é maior que o respeito por um indivíduo (e não por um estereótipo baseado em sexo ou qualquer outra característica), creio que a coisa esteja um pouco errada na sua visão. Eu não sou um “machista, fascista”, que “não passará”. Eu sou um homem, sim! Hetero, sim, e muito bem resolvido sexualmente (ainda bem!); mas acima de tudo, sou amigo dos meus amigos e disposto a dar a mão a alguém por quem eu tenha apreço.

Agora, se você não me conhece, não conviveu comigo por um momento sequer e se baseia em suposições para emitir opiniões: entre a sua opinião sobre o meu caráter e um caminhão de esterco, eu escolho o segundo – mas um tanto quanto reticente, porque as duas opções serviriam facilmente como adubo.

Eu prefiria ter descido da moto, ter dado um abraço nela, depois de tanto tempo sem vê-la, e tomar uma cerveja. Contar sobre aquela história de anos atrás e rir loucamente daquilo e renovar as memórias. Contar as novidades, rir um da cara do outro. Eu ia fazer piada do cabelo ridículo dela, e ela do fato de eu ser um nanico.

Mas não. A ideia geral é mais forte que a experiência individual. E enquanto isso perdurar, enquanto a imbecilidade coletiva for maior que o valor que se dá às atitudes individuais, amizades continuarão ruindo, famílias continuarão batendo boca à toa e relações sociais de coleguismo, mesmo com discordância, continuarão virando guerras virtuais e de informação dividindo pessoas.

Usando o feminismo como exemplo (mas não é o único caso), eu costumo dizer: meu filho tem 10 anos. É educado, polido, cortês, respeitador. Ele não é um potencial estuprador. É um menino, que se tudo correr bem, vai ser tornar um homem bom, honesto, e amigo dos amigos dele. No que depender de mim, da mãe dele, dos avós, é isso que ele vai ser. Não façam ele acreditar que ele nasceu com o destino de ser “controlado para não agredir uma mulher”. Ele é mais infinitamente mais gentil que isso. Ele tem mais caráter que isso. E ele só tem 10 anos!

Respeitem os seus. Nossas relações próximas, de amizade, gratidão, respeito e de carinho, são maiores que qualquer movimento social. Esse movimento pequeno, no nosso microuniverso, é maior e mais poderoso do que qualquer bandeira que se pode fazer flamular.

Tente, só uma vez, amar (ou ao menos respeitar) os mais próximos com o mesmo furor daquele quadrinho da Clarice Lispector que você compartilhou hoje pela manhã.

Se você acha que vai mudar o mundo gritando e cuspindo na minha cara numa manifestação, eu tenho uma má notícia pra você: eu não tenho esse poder que você acha que eu tenho. Eu não sou ninguém e não vou mudar merda nenhuma na sua vida.

A boa notícia é que você também não.

Boa noite.

Do Direito à Greve no Funcionalismo Público: Osvaldinho e a Mesada

Você é um pai de família chamado Osvaldo. Trabalha 8 horas por dia (sem contar as horas extras), e mais umas duas no trânsito.
O salário não é grande coisa, mas você faz das tripas coração pra não deixar faltar nada ao filho.
Você corta seus supérfluos. O jantar com a esposa já não é tão frequente, os passeios já quase não existem – afinal, a prioridade é o filho.

Osvaldinho, seu filho, acorda todos os dias ao meio-dia – com exceção das terças e quintas, quando ele tem natação e karate. Nos feriados prolongados, Osvaldinho vai à praia, porque a escola sempre “enforca” a segunda ou sexta-feira. Nas férias de fim de ano, Osvaldinho tem as férias maiores que as suas, então ele fica na casa que alugaram pro verão; enquanto você, Osvaldo, volta correndo pro trabalho, já que alguém precisa pagar pelo aluguel da casa e todos os custos das férias.

Osvaldinho volta de férias. Hora de comprar o material escolar. Você compra todos os livros (você não abre mão de oferecer a ele o mínimo necessário; nada pode faltar) mas Osvaldinho precisa abrir mão de algo, porque o dinheiro está curto. Lapiseira? Não, senhor! Nesse ano vamos de lápis e apontador. Caderno capa dura? Nâo precisa, a gente encapa os mais simples mesmo. Estojo do Ben 10? Nada disso! Reaproveita o da sua irmã mais velha, ué!
Osvaldinho não tolera, vai à loucura. Se sente injustiçado. Reclama que vai passar vergonha na escola, que seus amigos vão rir da cara dele.

Você, Osvaldo, então, tem uma ideia brilhante. Você daria uma mesada para que Osvaldinho pudesse comprar seus próprios supérfluos. Em troca, Osvaldinho teria algumas obrigações: lavar o carro no final de semana pra que os pais pudessem namorar um pouco por aí; lavar a louça após o jantar; entregar suas tarefas da escola feitas (e bem feitas!) todos os dias à noite para que os pais verificassem.

Osvaldinho aceita, feliz e contente. Recebe sua mesada e vai logo até à loja. Compra o estojo, os cadernos mais legais, as canetas mais bonitas, a lapiseira que mais parece um sabre de luz.

Entretanto, Osvaldinho não lava a louça da noite. Precisa apresentar os trabalhos da escola ao pai; se for lavar a louça, não vai dar tempo. Ele explica a situação, ao passo que você o permite deixar a louça para a manhã seguinte; já que ele sempre acorda tão tarde, não seria problema.

Osvaldinho aceita, novamente. Ele vai fazer as tarefas, e logo então vai dormir.

Quando a família se reúne para o almoço do dia seguinte, a louça está suja. Osvaldinho deixou para a última hora, diz que não deu tempo. Ele se chateia porque a família faz cara de bravo pra ele. Briga, xinga, e lava os pratos “daquele jeito”. A família come o almoço lembrando do cheiro do jantar.

À noite, você cobra Osvaldinho das tarefas da escola. Ele não apresenta; diz que não deu tempo porque precisou lavar a louça.

Você vai pra cama, desolado, e conversa sobre o fato com sua esposa. Chegam a um consenso: Osvaldinho precisa de modos. Não deu certo educá-lo pelo esforço, e talvez fosse melhor exigir um pouco mais dele.

No dia, seguinte, você e sua esposa conversam com Osvaldinho. Não vão lhe cortar a mesada, mas a cada falha dele, ele perde o valor proporcional daquela tarefa. Seria o justo, visto que Osvaldinho estava recebendo por elas, e a família contava com a colaboração dele, tanto para aliviar o peso que sua família carrega quanto para que ele possa aproveitar melhor seu tempo e crescer. Todos ganhariam, seja com a distribuição do esforço ou com o aprendizado.

No dia seguinte, Osvaldinho não está à mesa do café da manhã. Você estranha, vai até o quarto. Lá, encontra Osvaldinho amarrado ao lençol; uma ponta no braço, a outra no pé da cama. “Estou em greve de fome”, ele diz. Você o questiona, mas ele está irredutível. Diz que só sai dali para comer quando os pais desistirem essa história ridícula de desconto proporcional pelas falhas. E que antes disso, não voltaria também a lavar a louça ou o carro. “Mas você só lavou a louça uma vez, e bem mal lavada”, você ralha. Ele só esperneia, e segue irredutível na luta. Diz que os pais não o valorizam.

Você chega à conclusão, desolado, que seu filho é um caso perdido.

(…)

A esta altura da história, você deve estar achando Osvaldinho uma criança escrota e mimada. Eu também, na verdade. E eu vejo isso sempre.

Pois esta é a minha visão sobre a greve do funcionalismo público em geral no Brasil hoje. Greve? Pois que os funcionários públicos cumpram seu papel com o mínimo de qualidade antes. Só o mínimo. Ainda que os salários estejam aquém do que vocês, estão muito além do que todas as demais categorias no país. Recebem, pagos por nós, os “Osvaldos” da iniciativa privada, assistência diferenciada de educação; de saúde; de auxílios e apoios de todo tipo dos quais nós, os pagantes, não gozamos. Os “Osvaldos” da iniciativa privada estão cansados de pagar pelos seus luxos sem receber nada em troca.

A greve dos servidores públicos é justa? No contexto atual, não. Discorde, é direito seu. Mas antes de qualquer coisa, é preciso que cada um cumpra seu papel de forma bem feita, no prazo, e conforme o combinado com o seu contrato, inclusive quando foi aprovado em concurso.

Até lá, que a categoria se solte do pé da cama, encape seus cadernos e faça o favor de acordar antes do meio-dia como todo mundo. Ou isso, ou vai ser muito difícil que os “Osvaldos” aqui de fora da redoma onde vivem tenham alguma simpatia pelas suas agruras ou pedidos de “Osvaldinhos” mimados.

Sobre não se esconder de si (ou “Cale a boca”)

Não se manifestar sobre um tema, não dar sua opinião, não te faz uma pessoa menor. Dar uma meia opinião, sim.

Falo especificamente sobre os temas sobre os quais você, voluntariamente, decide opinar.
Uma opinião, ao contrário de uma mensagem, não precisa de um receptor para fazer sentido. É algo seu, que já existe, e que você sente necessidade de externalizar. 
Numa opinião, o receptor é um ser voluntário – e isso muda tudo; você não pode se dar ao luxo de ser “meio-você”.

Se você pretende dar sua opinião, agarre-se a ela e não se permita sentir-se ofendido pelo que vem a seguir, tampouco sinta-se diminuído ou desencorajado por sua opinião desagradar ou parecer ofensiva a pessoas que você ama. 
É a sua opinião, seu pensamento, sua essência. Se o seu medo ou vergonha são maiores que isso, ou você não está seguro de sua opinião, ou não é seguro sobre o que você é.

Em ambos os casos, é melhor ficar calado.

Mas se você não se esconde atrás da cortina do medo e da vergonha como uma criança, que deixando os pés à mostra, se esconde apenas de uma ideia, não se permita o anonimato; a institucionalização do seu nome; o uso de pseudônimos (exceto para – no contexto social em que seja estritamente necessário – falar sobre temas legalmente proibidos) e as meias-palavras.

São artifícios baixos, dignos apenas de enroladores, canalhas, velhacos e mentirosos.

Se você tem essa vontade e/ou necessidade íntima de se expressar, assuma os riscos e ônus de ser quem você é. 
Ou cale-se.

Dos sonhos bizarros e filmes trash

Eu tive um sonho essa noite que dava um filme trash da melhor (???) qualidade, provavelmente influenciado por aquelas imagens de terror envolvendo coelhos no período de páscoa.

Eu estava sentado no chão de uma varanda brincando com uma criança. Nos entretínhamos, eu e ela, com dois gatos e 6 coelhos brancos. Um dos coelhos dormia confortavelmente no cantinho, apoiado num xaxim de samambaia.

A criança sai, os gatos vão atrás dela. Os coelhos ficam por ali, zanzando, cheirando uns aos outros. O dorminhoco não move uma pestana sequer. Decido incomodar o pobrezinho, e passo a mão nas orelhas dele, deitando elas para trás em direção às costas dele.

(Agora as coisas ficam esquisitas)

O coelho pula no meu braço, e gruda na minha blusa de lã com 5 unhas (sim, eu consegui contar) longas e afiadas, que cravaram imediatamente por entre a trama de fios e corta a pele superficialmente, feito arranhão de gato. Eu tento chacoalhar pro coelho largar, e ele mostra os dentes, puxando o corpo em direção ao meu braço.

Os dentes pareciam dentes de gato: caninos longos e pontiagudos, e a mandíbula se abria muito mais que a de qualquer coelho que eu já vi. No susto, eu levanto, dou uma sacudida no coelho e chuto a aberração pra fora da varanda. Ele cai e corre pra direção contrária à minha, em direção a um galpão nos fundos da casa (pensando cá agora, a planta da casa tem tudo a ver com a casa da minha avó Porfíria), como se tivesse ficado com medo depois do bico que tomou.

Como eu não ia deixar aquela naba rondando a minha casa por nada nesse mundo, dou a volta na casa pra ver onde ele estava. Uma máquina de costura velha, abandonada no quintal, e o coelho embaixo. Dois cachorros que estavam ali próximos se afastam dele, aparentemente também com medo – um preto e um malhado, preto com marrom. Tento me aproximar do bicho e ele abre aquela boca bizarra na minha direção e se arma pra dar um bote como se fosse uma aranha, com as pernas recolhidas.

Não achando muito prudente a aproximação, corro pra dentro de casa e procuro desesperadamente pela espingarda sobre os dois armários, da sala e do quarto. O armário é alto, quase despenco. Arrasto o sofá, subo no braço e pego a bendita. Carrego com os cartuchos que estão sobre a mesa de jantar (não sei o que eles estava fazendo ali) e vou em direção à porta.

Ao sair pela varanda, encontro o cachorro preto todo sujo de sangue, comendo parte do coelho, agora já sem o couro. A parte que sobrou do coelho ainda se mexia, carne aparente e despedaçada pelas bocadas do cão faminto, tentando se arrastar em minha direção naquele momento de sobrevida.

E eu, rindo feito um idiota da cara do coelho malvadão todo estrupiado, disparo por acidente a arma dependurada no braço e arranco meu pé direito.

Fim.

Pague a conta

Saía pela estrada, pensativo, caminhando em desespero
Pensava na sua vida já perdida, amor, família, fé, dinheiro
Deixava a paz todo dia atrás da porta
Segundo o rumo de uma vida torta
Contava as horas só pra ver anoitecer
Pra no fim do dia ele só perceber
Um dia a menos na conta.

Rumando pelo espaço, frustrado, uma barata tonta
Rotina falsa, amor dissimulado, e uma esposa sonsa
Olhando quase como um estranho
Almoço e janta, cama, mesa e banho,
Contava as horas de sono sem querer
Pra ao acordar ele só perceber
Um dia a menos na conta.

Mantinha a cabeça sempre erguida, mas com muito esforço
Era um zumbi escravizado, um zé coitado, um corpo semi-morto
E expurgava sua raiva no banho
Gritando um ódio que não tem tamanho
Enchia cara todo dia ao entardecer
Pra no final só conseguir dizer
“Garçom, me traz a conta?”.

Ela acordava todo as cinco e meia, as seis estava pronta
Cabelo, filho, mesa posta, pé no salto e até lista de compras
E corre pro trabalho, procurando vantagem
Escondendo as lágrimas na maquiagem
Olha os ponteiros rodarem sem dó
O dia passou e só sobrou o pó
De um dia a menos na conta.

Seu coração enfraquecido, tão sofrido, não aguentava mais
Insandecido, louco, corta os pulsos, procurando paz
No fim da vida é que ele percebeu
Que em todo esse tempo só tempo ele perdeu
E olha pra trás agora, arrependido,
Por não ter sorrido, amado, vivido,
E uma vida inteira na fatura
Não tem mais jeito, a realidade é dura
E só a morte (veja que falta de sorte)
Só a morte
Só a morte é que cobre a conta.